A Paixão.

Inegavelmente, dada a carga negativa associada ao conceito de paixão, a afirmativa de que a fonte original das paixões é algo bom, tende a causar estranheza na maioria das pessoas. Por tal motivo julgo fazer algumas incursões. 

Como ocorre com boa parte das línguas naturais, a palavra 'paixão' comporta diversos significados. Na acepção popular em nossos dias, ela designa certos sentimentos fortes, exacerbados, tumultuados, que em geral se associam à afeição votada a pessoas e mesmo a coisas e atividades: 'Matou-se por paixão', 'É apaixonado por carros', 'Tem paixão pelo futebol'. etc.




Do ponto de vista psicanalítico, o termo possui significados mais amplos e neutros quanto ao bem e ao mal. Em seu significado etimológico, paixão se contrapõe a ação. Isso fica mais claro nas línguas inglesa e francesa, em que esses vocábulos, passion e action, estão mais próximos de sua origem latina. Ação atuar, agir; paixão sofrer a ação, recebê-la passivamente.

Nesse sentido básico, pode então dizer-se que ação e paixão são como as faces diferentes de uma mesma moeda?  Nem sempre! Tenha cuidado com afirmaçoes e questione sempre algo "comprado pronto!" Para tentar elucidar o raciocínio, vamos exemplificar assim:

"Sempre que algo age, alguma outra coisa sofre paixão. - Eu bato na mesa é ação; a mesa recebe a pancada paixão. O mesmo fenômeno que para mim é ação, para a mesa é paixão"

Exemplificando parece até inteligivel, mas dadas as grandes transformações por que passou a física em nosso século, não é possível expressarmos em uma linguagem ordinária como a ciência contemporânea caracteriza a matéria.  Lembramos então que noções não mais bastam às novas teorias físicas, logo não existe um estado físico da paixão e sim um estado emocional a qual influencia nossos comportamentos e sintomas físicos.

Podemos, para os nossas intenções, considerar o estado emocional da paixão como: 

1) vontade;
2) pensamento;
3) percepção.

A vontade se exerce quando emocionalmente se deseja algo; 
O pensamento quando ela raciocina, duvida, compara, abstrai etc. Pensamento e vontade assim definidos são, por assim dizer, as "dimensões" ativas de um estado emocional.
A percepção seria, por outro lado, sua dimensão passiva. Isso fica mais claro quando enumeramos as formas gerais dessa percepção:

a) sensações dos corpos (formas, solidez, cores, sons etc.);
b) percepções das operações  (percepção de que está raciocinando, duvidando, querendo, imaginando, sentindo etc.);
c) sentimentos (amor, ódio, tristeza, alegria etc.)

Quando a voltamos nossas atenções para o auto-exame, refletimos, introspectamos, e fica pouco provável não perceber que está raciocinando, ou duvidando, ou querendo algo.

Chegamos, neste ponto a algo um pouco mais direto e esclarecedor pois efetivamente a "paixão" denota destas percepções ou seja ela é oriunda de sentimentos como o amor e o ódio, a alegria e a tristeza, a admiração e o desejo então veja que nem sempre a paixão é algo tão benéfico assim, recorde-se que quando se ouve  sobre a paixão de Cristo, sempre se associa a um grande sofrimento. Percebeu? Então atente-se!.

Voltando à análise do conceito restrito de paixão, enfatizemos que ele preserva o elemento essencial da noção abrangente: a passividade. Amor, ódio, alegria, tristeza e demais paixões são algo que "se apodera" de nós de forma involuntária e muitas vezes angustiante. 

Diante destas breves afirmaçoes podemos concluir que os estados passionais (sejam eles quais forem) acabam nos trazendo uma série de benefícios bem como algumas frustrações e angústias, porém se tratarmos nossos estados passionais com a devida serenidade e buscando a origem destes estados poderemos ter ao invés de grandes decepções grandes e continuas alegrias. A paixão limita-se ao domínio que você exerce sobre ela e da forma com que a conduz. 
Seja prudente com suas paixões, mas principalmente (em momentos de dificuldade) nunca se culpe e sim RESPONSABILIZE-SE!

Até a próxima!

As angústias da angústia.

A angústia  nos termos da teoria vem a fazer articular todo o discurso psicanalítico.
Pessoalmente falando não me agrada a segregação da Psicanálise em "Escolas" desse ou daquele autor.  Se para Freud a angústia é caracterizada pela ausência do objeto desejado, ou pela perda de um objeto, em Lacan ela se relaciona à presença do objeto. Contudo, a um objeto particular, o objeto da psicanálise, o objeto A
Teríamos nós tardes e tardes de debates (regadas a teoria e termos alemães) a respeito dessa ou daquela "escola" mas isso, a meu modesto sentir, seria apenas o exercício do egocentrismo, coisa que não vejo valia terapêutica, enquanto o leigo tenta buscar sugestões através desse texto.
 
Aqui farei uma breve reflexão sobre o conceito de angustia e sua importância na construção da teoria e prática psicanalítica e por obvio na constituição do sujeito em sua individualidade e subjetividade frente ao mundo.
Para começar é importante sabermos da morfologia propriamente dita:

Angústia origina-se do latim "Angor" ou seja ‘angustura, estreitamento, apertamento’.

Desde seus primeiros trabalhos Freud vinha se preocupando com a questão da angústia. Como se origina a angústia? Tudo o que sei a respeito é o seguinte: logo se tornou claro que a angústia de meus pacientes neuróticos tinha muito a ver com a sexualidade(Freud, 1894).

Ainda no século pasado a abstinência sexual é apontada como causa de angústia. Ela ocorreria devido ao acúmulo de tensão sexual. Algumas vezes leremos a palavra sexual (e isso é importante ser lembrado)  porém nem sempre ela se relaciona com o ato genital em si, mas na maioria dos casos, está mais diretamente relacionada com o impulso do desejo de ter, fazer, querer etc..
Em  Projeto para uma Psicologia Científica, 1895 Freud fala que a neurose de angústia teria sua etiologia na má ou não utilização da libido, que assim, se transformaria em angústia de uma forma direta.
Os estados traumáticos  ( Estimulação excessiva e desamparo) se inscrevem de tal forma que deixam uma tendência a serem revividos, esta reprodução da dor é que então levaria a uma repulsa ou em outros termos o  recalcamento (repressão). 
Para dar continuidade a discussão sobre a angústia, faz-se necessário abordar brevemente os conceitos de pulsão (tendência) e recalque (repressão), pois estes nos ajudarão a compreender melhor o que se seguirá. Para aquele colega que prefere algo e teórico, deixo minha homenagem - pulsão (trieb) e recalque (verdrangung) que como falei, para o leigo que lê essa humilde reflexão a valia é apenas informativa.


 Na verdade a pulsão é o instinto que se desnaturalizou (tendência), a pulsão se apóia no instinto, mas não se reduz a a apenas ser ele. 
A pulsão nunca se dá por si mesma – nem a nível consciente, nem a nível inconsciente, ela só é conhecida pelos seus representantes:  Traço Mnemônicos - (Memórias) Afetos (Cuja descarga é percebida como sentimento). Saliento que não existe a tendência passiva ou seja, ela sempre precisa estar ligada a uma fonte, uma pressão, um objetivo ou a um objeto. O objetivo da pulsão (tendência) é sempre a satisfação, sendo este definida como a redução da tensão. Uma pulsão não pode ser nem destruída nem inibida; uma vez tendo surgido, ela tende a lhe coagir para a satisfação.

Neste momento, julgo oportuno citar Lacan quando defende que  
"...não é a falta do objeto que angustia, mas sim a presença dele.." .
Ainda muito contemporâneo, vislumbrou na época o que hoje as traduções da angústia se refletem, que podemos resumir em: preocupo-me mais no que os outros irão "pensar" de mim, do que propriamente a falta desses mesmos "outros".
Perceba: 

 A angústia não está relacionada ao desamparo inicial, mas sim ao amparo que o sujeito recebe, onde se faz enigmático, expectativo, antecipativo e se situa em relação à incerteza do que sou como causa do desejo do outro.

Felizmente não existem respostas corretas ou incorretas, mas, a título de reflexão, procure analisar suas angústias sob a ótica acima e quem sabe algumas delas não se enfraqueçam mais rapidamente assim como a minha se dissolveu, quando descobri que consigo escrever sobre a angústia de ter angústias.

"Que não se esmaguem com palavras, as entrelinhas..." Clarice Lispector
 Boa reflexão!.

Esvazie sua mochila.

Nos ultimos dias do ano, é quase a normalidade que façamos reflexões sobre os rumos que tomamos nos 364 dias anteriores. Talvez esta não seja a esfera correta para fazer certos tipos de comentário, mas se não posso dividir as minhas experiências com meus pacientes, para que realmente eu serviria?
No final de 2009 ou início do ano (não recordo ao certo) assisti por indicação e muita insistência, um filme chamado "UP IN THE AIR" que quando li a sinopse quase desisti. Felizmente fui perseverante.
Não que isso tenho mudado muita vidas, mas algumas coisas interessantes chamam realmente a atenção. Depois de comentários com amigos, percebi que ao assistirem, também acabaram despertando certo interesse....Mais a fundo, pude conferir que o processo Projeção ¹ estava em evidência.
Muitas e muitas pessoas também necessitam mesmo "esvaziarem suas mochilas" e percebi que nem tudo pode ser tirado e somos nós, os profissionais da área, que devemos orientar nessa empreitada.
Para quem não assistiu, abaixo vai um trecho traduzido da conferência do personagem principal.
Quem sabe que o ler, encontre algo interessante, tanto quando eu percebi assistindo.
Feliz ano novo a todos!

¹ Projeção é um mecanismo de defesa do ego no qual os atributos pessoais de determinado indivíduo ou seja emoções de qualquer espécie, são atribuídos a outras pessoas.


"Quanto  a sua vida pesa? Imagine por um segundo que você está carregando uma mochila. Coloque dentro dela todas as coisas que você tem na sua vida ... Começe com as pequenas coisas. As prateleiras, as gavetas, os bibelôs, brinquedos...então você começa a adicionar as grandes coisas. Roupas, utensílios de mesa, lâmpadas, o televisor ... a mochila deve estar ficando muito pesada agora. Ai sim você vai para as maiores. Seu divã, seu carro, sua casa ... Realmente coloque todas estas coisas dentro...coloque tudo dentro desta mochila. Agora vamos preencher os espaços com as pessoas. Comece com conhecidos casuais, amigos de amigos, pessoas ao redor do escritório ... e então você se move para as pessoas da sua confiança que detém seus segredos mais íntimos. Seus irmãos, suas irmãs, seus filhos, seus pais e, finalmente, o seu marido, sua esposa, seu namorado, sua namorada. Vamos leva-los todos para a mochila...Agora, segure-a na mão e a coloque. É é perfeitamente normal se as tiras começarem a cortar seus ombros. 
Não se engane, seus relacionamentos são os componentes mais pesados em sua vida. Tudo isso é muito pesado...Todas essas negociações e argumentos e segredos, as responsabilidades, os compromissos.  
Quanto mais mais lento nos movemos, mais rápido morreremos.  
Não se engane, movimento é vida.
Esvazie sua mochila....

Volição.

Volição (do latim volitione) - É o processo cognitivo pelo qual um indivíduo se decide a praticar uma ação em particular. 
É definida como um esforço deliberado e é uma das principais funções psicológicas humanas (sendo as outras afeto, motivação e cognição) a qual falaremos nos tópicos oportunamente a seguir.  Processos volitivos podem ser aplicados conscientemente e podem ser automatizados como hábitos no decorrer do tempo, sendo eles certos ou errados, neste momento não nos cabe juízo de valor.

 
Para ilustrar e explicar alguns destes processos precisamos resumidamente topografar pelos terrenos da percepção; imagens mentais; Processos mnêmonicos (memória) etc e processarmos as informações antes do ato volitivo propriamente dito, pois uma ou mais distorções e/ou interrupções patologicas durante a fração destes processos, podem acarretar uma ação cognitiva completamente avessa ao que realmente desejamos empreender.

ATO PERCEPTIVO

A sensação (sensibilidade), matéria prima do ato perceptivo, pode ser dividida em:
- sensibilidade externa: consciência do objeto;
- sensibilidade interna: consciência visceral;
- sensibilidade geral: superficial e profunda (refere-se ao sistema osteomuscular e labirinto);
- sensibilidade especial: relacionada aos órgãos dos sentidos.

ALTERAÇÕES QUANTITATIVAS DA PERCEPÇÃO SENSORIAL
AGNOSIA: o indivíduo não consegue identificar as impressões sensoriais que recebe.
ANESTESIA: ausência de percepção.
HIPERESTESIA: estímulos captados de forma exagerada.
HIPOESTESIA: estímulos captados de forma diminuída.

ALTERAÇÕES QUALITATIVAS DA PERCEPÇÃO SENSORIAL
1. TROCA: mudança de uma sensação comum por outra, em geral desagradável. Cacosmia (odor fétido para perfumes agradáveis); parageusia (paladar fétido para alimentos saudáveis); acantesia (dor para alimentos banais).
2. SINESTESIA: Troca da qualidade sensorial por outra. Ver sons ou ouvir cores.
3. DESREALIZAÇÃO: estranheza em relação ao mundo.
4. DESPERSONALIZAÇÃO: estranheza de si próprio.

FALSAS PERCEPÇÕES
a. PAREIDOLIAS: percepções fantásticas em um objeto real (imagens de animais quando se olha para as nuvens, mas o observador sabe que o objeto observado é uma nuvem);
b. ILUSÕES: percepções deformadas do objeto real momentaneamente aceita pelo juízo de realidade.
c. ALUCINAÇÕES: aparecimento de uma imagem na consciência sem um objeto real (imagem alucinatória), com as características de uma imagem perceptiva real e por isso aceita pelo juízo de realidade:
- Alucinações Visuais: podem ser elementares (fagulhas, clarões), diferenciadas (figuras, visões), lilipudianas (diminuídas) e guliverianas (gigantes);
- Alucinações auditivas: são as mais comuns, podem ser elementares (zumbidos, estalidos) e diferenciadas (vozes). Na esquizofrenia as vozes se dirigem ao paciente (primeira pessoa) e na alucinose alcoólica falam dele (terceira pessoa).
- Alucinações olfativas e gustativas: são raras e quase sempre associadas, consistem em cheiros desagradáveis (gás, lixo, animais mortos).
- Alucinações táteis: formigamento, picadas, queimaduras, animais repugnantes, relacionadas ao uso de cocaína e anfetaminas.
- Alucinações cenestésicas: relacionadas a sensibilidade visceral. Por exemplo, o paciente diz que seu intestino está amolecendo e apodrecendo.
- Alucinações sinestésicas: fusão e troca de duas imagens de qualidades sensoriais diferentes. Por exemplo, ver a cor do som.
- Alucinações cinestésicas: relacionada aos movimentos.
- Alucinações hipnagógicas (ocorre ao adormecer) e hipnopômpicas (ao acordar). Não significam doença, pois podem ocorrer em indivíduos sem doenças psiquiátricas.
d. PSEUDO-ALUCINAÇÕES: não possui projeção no espaço e nem corporeidade. Surge como vozes internas ou imagens internas e podem ocorrer nas mesmas situações das alucinações.
e. ALUCINOSES: possuem projeção no espaço externo e ocorre certa estranheza do paciente quando ao fenômeno perceptivo ocorrido, podem surgir no rebaixamento do nível de consciência e em lesões pedunculares e occipitais, assim como no alcoolismo (por exemplo: alucinose alcoólica).
IMAGENS MENTAIS

1. IMAGEM PERCEPTIVA REAL: possui nitidez (imagem clara e bem delimitada), corporeidade (imagem viva, corpórea), estabilidade ( a imagem é fixa) ; extrojeção (o objeto da imagem está fora dos limites do eu) e ininfluenciabilidade voluntária (a imagem não se modifica pela vontade).
2. IMAGEM PÓS-SENSORIAL OU ECO SENSORIAL: - imagem resultante persiste após um estímulo intenso (como acontece quando se olha para o sol e se fecha os olhos).
3. IMAGEM REPRESENTATIVA OU MNÊMICA:- determinada imagem sensorial vivida na memória (introjeção), sem que o objeto esteja presente e por isso possuindo características inversas da imagem perceptiva real.
4. IMAGEM FANTÁSTICA OU FABULATÓRIA: criação da livre atividade imaginativa.
5. IMAGEM ONÍRICA: ocorre nos sonhos (imagem mnêmica e/ou fantástica).
  Características: plasticidade, mobilidade, introjeção, ilogismo, intemporalidade. 

  
MEMÓRIA (PROCESSO MNÊMICO)

Capacidade ou propriedade psíquica de fixar, conservar e reproduzir, evocar ou representar, sob a forma de imagens representativas ou mnêmicas, impressões sensoriais recebidas, transmitidas e conscientizadas sob a forma de sensações.

TIPOS DE MEMÓRIA
1. MEMÓRIA IMEDIATA: desaparece facilmente caso o acontecimento não apresente conotação afetiva ou outro tipo de importância.
2. MEMÓRIA DE FIXAÇÃO: guarda fatos ocorridos nos últimos dias ou semanas.
3. MEMÓRIA DE EVOCAÇÃO: relacionada aos dados mais antigos da vida do paciente.
FASES DO PROCESSO MNÊMICO  (MEMÓRIA)
 
1. FIXAÇÃO: o fato para ser memorizado de ser dotado de uma carga afetiva potencial (positiva ou negativa).
2. CONSERVAÇÃO: período de latência em que se conserva a imagem mnêmica.
3. EVOCAÇÃO: consiste em um ato consciente e esforço intelectual para trazer ao momento presente uma memória.
4. RECONHECIMENTO: consiste na identificação da imagem evocada como acontecimento pretérito, ou seja, identificada como recordação no quadro da situação atual. 

ALTERAÇÕES QUANTITATIVAS
1. AMNÉSIA MACIÇA: esquecimento de grande parte ou de todo o passado.
2. AMNÉSIA LACUNAR: comprometimento de fatos limitados do passado (o indivíduo lembra o anterior e o posterior a determinado período de sua vida).
3. AMNÉSIA SELETIVA: refere-se apenas a um determinado tema.
4. HIPERMNÉSIA: aumento da atividade ou capacidade de notação.
5. HIPOMNÉSIA: incapacidade de reter conhecimentos recentes; falsas recordações, paciente cria histórias sem consistência ou duração para preencher lacunas de memória (confabulações). A hipomnésia de evocação pode ser organogênica (caráter progressivo e irreversível geralmente - estados demenciais) ou psicogênica (globais, lacunares ou seletivas - somente para fatos dotados de carga afetiva - todas reversíveis). A hipomnésia de fixação sem hipomnésia de evocação (o indivíduo se lembra de sua infância e não sabe o que comeu no almoço) geralmente é organogênica, podendo ocorrer no delirium e nos quadros demenciais.
ALTERAÇÕES QUALITATIVAS
1. ALOMNÉSIAS OU ILUSÕES DE MEMÓRIA - São falsas reminiscências, ou seja, imagens mnêmicas de fatos que aconteceram que são deformadas e falseadas pelo paciente.
2. PARAMNÉSIAS OU ALUCINAÇÕES DE MEMÓRIA - imagens criadas pela fantasia do paciente e que nunca ocorreram.


 Fonte: CCS -Centro de Ciências da Saúde/UFSC - BR

O mês emocional.

As vésperas da comemoração anual mais importante para os católicos, resolvi teorizar a respeito da ansiedade que se instala sobre muitas pessoas neste período. A controvérsia de sentimentos e sensações, acabaram me motivando a (por hipótese) tentar divagar um pouco sobre esse assunto específicamente. Podemos começar entendendo os sentimentos ansiosos que acabam por vir a tona nestas datas.
A ansiedade funciona como um alerta das ameaças contra o ego (nem sempre reais).  
Freud descreveu basicamente três tipos de ansiedade. A ansiedade objetiva surge do medo dos perigos reais que realmente ameaçam contra a integridade física do sujeito, mas neste momento não nos é de valia interpretá-la. Os outros dois tipos, a ansiedade neurótica e a ansiedade moral, derivam da ansiedade objetiva.


A ansiedade neurótica surge diante do reconhecimento dos perigos potenciais inerentes à satisfação dos impulsos do id (inconsciente). Não se trata dos instintos propriamente ditos mas do temor à provável punição em conseqüência de algum comportamento indiscriminado dominado por seu inconsciente. Em outras palavras, a ansiedade neurótica é o medo da punição que o sujeito tem ao expressar os desejos impulsivos. Não tenha medo da palavra neurose, quase todas (senão todas) as pessoas a possuem, apenas tenhamos um pouco de respeito e atenção a desproporcionalidade das coisas. Vamos tomar um exemplo, para  que o leitor possa compreender o nosso ponto de vista.: Ayrton Senna certamente possuia um grau dominado de ansiedade neurótica ou seja ele, pelo medo da  "auto-punição" da derrota, acabava preparando-se muito mais do que qualquer outro competidor ou seja a dose de ansiedade neurótica era consumida pela determinação.
    
A ansiedade moral surge do medo da consciência. Quando realizamos - ou mesmo pensamos em realizar - algum ato contrário aos valores morais da nossa consciência, é bem provável sentirmos culpa ou vergonha. O nível de ansiedade moral resultante, depende do quão desenvolvida é a nossa consciência. As pessoas com menos virtudes apresentam menos ansiedade moral.




A ansiedade provoca tensão, motivando o indivíduo a tomar alguma atitude para reduzi-la. De acordo com a teoria de Freud, o ego desenvolve um sistema de proteção - os chamados mecanismos de defesa - que consistem nas negações inconscientes ou distorções da realidade.  Alguns destes mecanismos de defesa no intuíto de obviamente nos defender, acabam nos trazendo mais ansiedade e o circulo se completa.

Tenhamos em mente que uma comemoração natalina, por exemplo, é investida de uma enorme gama de sentimentos, as quais, muitos deles, são completamente anacrônicos. A ansiedade dezembrina além do retorno as lembranças familiares e infantis de Natal ainda nos reserva o fim do ano no calendário Romano. Por ser dezembro o mês do ano mais emocional, não teremos muitas dúvidas, nem receios, em entender que certas sensações são corretas ao pensamento normal. Na verdade o que a meu ver torna-se mais complicado para muitos colegas e obviamente para eu mesmo, é discernir entre o que é pensamento normal e o que é patológico, pois existe a pulsão do sujeito pelo que é patológico e em muitos casos, se faz uso deste subterfugio (por ser menos passível de erros) para apontar superficialmente um caminho e seguir por ele.
O que chega a ser preocupante neste mês em específico, é que em muitas pessoas não obtém o prazer pela preocupação na evitação do desprazer.
Para alguns sujeitos, as lembranças familiares e infantis nem sempre tem a "cor dourada e vermelha" do Natal. Tenho certeza que todos nós conhecemos alguém que acaba se deprimindo nestas épocas, então é de vital importância que o leitor entenda que os certos excessos são cometidos inconscientemente ou seja o impulso transcende os mecanismos de defesa do Ego em busca de satisfação, coisa que nem sempre sociológicamente e moralmente é aceitável.
Ao meu pensar e certamente a todos os pensadores que sigo, a Psicanálise foi criada como instrumento clínico-terapêutico e ainda neste contexto, lembro que a informação pode hoje ser obtida em muitos lugares, porém a nós, é facultado transformá-la ou não em conhecimento. Espero, com este pequeno ensaio, ter contribuído para essa transformação, bem como ter minimizada as angústias de alguém, tanto quanto escrever, contribui para o desaparecimento das minhas. Feliz Natal a todos.

Bullying e a Psicanálise.


Na atualidade, um dos temas que vem despertando cada vez mais, o interesse de profissionais das áreas de educação e saúde, em todo o mundo, é sem dúvida, o do bullying escolar. Termo encontrado na literatura psicológica anglo-saxônica, que conceitua os comportamentos agressivos e anti-sociais, em estudos sobre o problema da violência escolar.

Sem termo equivalente na língua portuguesa, define-se universalmente como “um conjunto de atitudes agressivas, intencionais e repetitivas, adotado por um ou mais alunos contra outro(s), causando dor, angústia e sofrimento”. Insultos, intimidações, apelidos cruéis e constrangedores, gozações que magoam profundamente, acusações injustas, atuação de grupos que hostilizam, ridicularizam e infernizam a vida de outros alunos, levando-os à exclusão, além de danos físicos, psíquicos, morais e materiais, são algumas das manifestações do comportamento bullying.

O bullying é um conceito específico e muito bem definido, uma vez que não se deixa confundir com outras formas de violência. Isso se justifica pelo fato de apresentar características próprias, dentre elas, talvez a mais grave, seja a propriedade de causar “traumas” ao psiquismo de suas vítimas e envolvidos. Possui ainda a propriedade de ser reconhecido em vários outros contextos, além do escolar: nas famílias, nas forças armadas, nos locais de trabalho (denominado de assédio moral), nos asilos de idosos, nas prisões, nos condomínios residenciais, enfim onde existem relações interpessoais.



Depois dessa breve introdução, podemos analisar o "Bullying" de acordo com a ótica da Psicanálise
A meu sentir, através da Identificação Projetiva – conceito criado por Melanie Klein, na década de 1940 -, o sujeito tem a ilusão de livrar-se de partes de si, intoleráveis, colocando-as no interior do outro (o objeto). Este mecanismo proporciona ao sujeito uma sensação de onipotência, dado que o alimenta em um momento de controle.
Este conceito – absolutamente fundamental - pode ser compreendido na dinâmica psicótica (ansiedade paranóide, delírio, etc.) e permite explicar de forma bastante razoável e clara fenômenos como o racismo, a discriminação e o obviamente o Bullying.

No caso deste último, o sujeito/grupo serve apenas como pretexto, pois estes são aparentemente portadores do material psiquicamente intolerável por parte dos ditos sujeito e /ou grupo agressores.

Recentemente, podemos citar como exemplo a discriminação de que tem sido alvo uma criança portadora de doença oncológica. A dita criança fadada mais rapidamente a morte – torna-se, deste modo, a portadora das angústias de morte dos colegas, que se mostram incapazes de as integrar /suportar a dor como se fosse as deles mesmo....maltratando-a no sentido de tentar expulsar de sí este impulso de morte.
Na verdade é importante lembrar que o Bullying sempre foi praticado, porém com outros rótulos e sem a devida atenção pela mídia. Pela rapidez de informação e por sites de relacionamentos com vídeo (Youtube), bem como a evolução dos aparelhos eletrônicos (celulares), infelizmente estes meio acabam por difundir e angariar adeptos com esta mesma patologia  ou seja a dita civilização mais uma vez presta um deserviço a sociedade como um todo e certamente a saúde mental de muitos sujeitos.

I Encontro Brasileiro de Estudos sobre a obra de Freud.

Nos dias 26 e 27 de Novembro aconteceu em Porto Alegre o I Congresso de Estudos sobre a Obra de Sigmund Freud. Participando dele, começo a relatar de uma forma resumida e muito informal o que lá aconteceu.
Como em outros Congressos, Simpósios e Palestras que tratam desta ciência, o ambiente formal, médico e quase litúrgico se manteve. É interessante depois de alguns eventos, que basicamente, este ambiente é o que reflete para a socidade os meandros de nossa profissão, coisa que nem sempre é verdade, porém mais a frente entenderemos um pouco mais sobre isso. No credenciamente, fui recebido com enorne organização pelos membros da  Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre, entidade séria filiada a IPA (International Psychoanalysis Association). Antes de adentrar os salões do Plaza São Rafael, percebi a movimentação de certas pessoas já com idade cronológica avançada mas de pensamentos afiados, como me disse um grande amigo.
Hoje é fato que a Internet é uma as ferramentas mais importantes na integração das pessoas e para tal, antes do começo dos trabalhos, pude assistir o final de um Simpósio sobre Psicanalise na Infancia e Adolescencia com o Psicanalista Uruguaio Victor Guerra via videoconferência. Foi muitissimo interessante ver profissionais de mais de 40 anos de Clinica debatendo, aprendendo e ensinando através desta importante ferramenta. 
Dr. Victor falava da importância dos sonhos nos bebês e que quando estes dormem não os pais são guardiões de seu sono, mas sim quando adormece uma criança em paz, se transforma ela na guardiã dos sonhos dos pais.
Já no final do Simpósio, uma colega relembrou que o Dr Victor estava se comunicando com todos, no quarto de um dos filhos. Que ironia não? Foi realmente uma experiência breve e muito gratificante, mesmo não participando ativamente de todo evento anterior.
Depois de alguns cumprimentos, abriu-se os trabalhos através da Pessoa do Dr. Gley Costa que muito gentilmente recebeu a todos com alegria e tenho certeza a recíproca tornou-se verdadeira, pois minhas suspeitas (e sim sou apto a faze-las) estavam corretas. Teriamos um evento clínico, voltado a prática e ao melhoramento, pois em suma esta é a nossa função enquanto profissionais.
O conferencista não poderia ser melhor escolhido (a cargo do Dr. Petrucci), tratava-se de:
ABRAM EKSTERMAN, Médico Psiquatra, Diretor do Nucleo de Medicina Psicossomática da Santa Casa de Misericórdia  e membro da Sociedade Brasileira de Psicanalise do RJ. 
Dr. Ekstreman (discípulo do Dr. Danilo Perestrello) fez jus ao seu mestre, nos brindando com o "Estudo Crítico da Obra de Freud". O ensaio, eu já havia o recebido para ler, coisa que fiz duas vezes, dado o "sabor doce-apimentado" do texto, levando-nos sempre pelo caminho da benécie do paciente, das técnicas de evitamento de sofrimento, da minimalização das angústias etc..
É importante saber que informação não é conhecimento e o que se passou, foi exatamente a transmissão pura de conhecimento. O conteúdo teórico estava lá, mas como uma bela roupa: moderna e usual. A teoria não veio desta vez com aquele casaco "surrado" e sim estava perfeitamente alinhada e pronta para qualquer debate. Ontem, recebemos todos, um presente (que para muitos) foi parecido com o presente usual de nossas avós (existe, mas davamos pouca importância) mas para mim algo único de ser vivenciado. 
Apesar da leitura em quase totalidade de seu Estudo ter comprometido seu tempo de Chistes, eles vieram nos momentos certos e precisos, coisa que um Psicanalista precisa sempre ter, sob a minha humilde ótica.
Este texto, de forma alguma, trata-se de uma narrativa e sim de uma crítica. Critica esta dirigida a mim mesmo, por ter passado estes anos sem me aprofundar na metodologia deste provocante conferencista.
Este tópico, se encerra com o resumo do que ele se propõe, que é transmitir a idéia de que Freud sempre será uma novidade perene, quando seus seguidores (assim como eu) pensaren que nada sabem, pois um bom Psicanalista, (quando faz Psicanálise) torna-se independente da "escola" a qual pertence. 
Um desejável terapeuta, não pratica a teoria; pratica a prática clinica. Essa Psicanálise, quando exercida com cuidado e conhecimento, sempre será Psicanálise ou seja aquela que Freud nos legou e que tentamos, em favor dos que sofrem, desenvolve-la e aperfeiçoá-la. Com esta mentalidade seguiremos em frente....