A imagem da sede.

Ainda dia destes li uma matéria a respeito da exclusão do Narcismo do CID 10 (Codigo Internacional de Doenças). Diante da eminência desta exclusão, é importante relembrar este pequeno artigo. 
O narcisismo, conceito psicanalítico cujo nome Freud tomou de empréstimo ao mito grego de Narciso, o jovem que apaixonou-se por sua própria imagem espelhada na superfície de um lago, ficou associado, em nossa cultura, à idéia de vaidade que, segundo o dicionário católico é, dentre os sete pecados capitais, o mais grave, pois  todos os outros derivariam deste.
Conforme o mito explicita, a idéia de narcisismo está vinculada à questão da imagem e esta, por sua vez, à noção de identidade. A imagem corporal é o primeiro esboço sobre o qual irão se desenhar, posteriormente, as identificações constitutivas da personalidade. 
Assim sendo, não podemos deixar de fazer uma reflexão acerca da função primordial da imagem no mundo contemporâneo, motivo pelo qual alguns teóricos enfatizam que vivemos no interior de uma cultura do narcisismo, entendendo-se por isto, uma cultura voltada para a imagem e para o individualismo.
Lembramos o comercial que dizia: imagem é nada, sede é tudo. Obedeça sua sede, beba o refrigerante que você deseja.” O que se pode depreender desta palavra de ordem? Obedeça a sua sede, sua pulsão (tendencia), seu desejo e não àquilo que um outro refrigerante  promete fazer por sua imagem. É tão grande o poder da imagem em nossa cultura, que o sucesso do referido comercial decorre da estratégia de utilizar a antítese, imagem é nada, para antagonizar seus concorrentes que afirmam: imagem é tudo.
Se a ênfase na imagem é tudo, alimentando o que poderíamos chamar de uma vertente patológica do narcisismo, cresce no Brasil uma cultura de idolatria ao corpo perfeito, alavancando uma economia da medicina cosmética que movimenta elevadas quantias em dinheiro, promovendo um efeito avalanche que colocou nosso país como campeão no ranking das cirurgias plásticas de caráter exclusivamente estético realizadas no mundo, ultrapassando os Estados Unidos que, até então, detinha este título. 

 
Quanto ao aspecto do individualismo observamos que se encontra associado à idéia de egoísmo que, por vezes, é utilizado como sinônimo para o pecado da vaidade.
Ego-ismo, amor exclusivo a si mesmo opõe-se a altru-ismo, amor ao outro. É esta exclusividade do amor a si mesmo com exclusão do outro, que vai tornar impróprio este amor.
Que dizer então do amor próprio? Quando se diz de alguém que ele não tem amor próprio, que não se orgulha de si mesmo, queremos dizer que esta pessoa tem uma baixa auto estima, ou, em linguagem psicanalítica, uma falha narcísica
A falta do amor próprio, do amor bem medido por si mesmo, conduz ao aprisionamento do indivíduo no desejo do outro, alienando-se nele, dessubjetivando-se e passando, irremediavelmente, à condição de objeto. É neste sentido que é preciso afirmar que o narcisismo pode alimentar a vida ou a morte.
Os  conceitos de narcisismo, ego e identidade encontram-se estreitamente ligados. É pelo olhar do outro, especialmente este outro materno que encarna todas as nossas possibilidades de satisfação, prazer e segurança, que aprendemos a saber quem somos. Se o olhar deste Outro brilha por nós e se em algum momento pudermos nos sentir capazes de preencher  este Outro de alegria, estaremos constituindo nosso amor próprio, aprendendo a ler no espelho do olhar do Outro, que nossa existência vale a pena e tem um sentido, nem que este sentido seja, num primeiro momento, preencher os anseios deste outro que significa tudo para nós, condição mesma de nossa existência.
 É fundamental que em algum momento a criança possa sentir-se majestosa, como também  é primordial, para que este amor não se torne impróprio, mortífero e excludente, que um terceiro termo, aquele que virá exercer a Função Paterna, interdite esta vivência de satisfação absoluta, procedendo cirurgicamente a uma ferida narcísica.
O narcisismo mortífero se alastra do nível individual para os processos grupais, atingindo fenômenos sociais de grande alcance e da maior gravidade para o destino da humanidade. Absolutismo, totalitarismo, intransigência, intolerância, encontram suas raízes em caminhos complexos. 
Diante disso o desafio é poder transformar o sofrimento deste amor ferido em compaixão, em arte compartilhada de conviver com as cicatrizes, vivenciando-as como fruto deste combate entre vida e morte e transformá-las em resto, à partir do qual, toda criação humana possa se abrir em favor da vida.
Uma das principais funções de nosso ego narcísico é nos fornecer uma ilusão de permanência e continuidade, que nos permita tocar a vida no dia a dia do tempo medido por nossos relógios. Assim, quanto mais se aguça os acontecimentos de um mundo onde tudo é consumido e se torna superfluo em tempo recorde, maior a tendência de um endurecimento deste ego narcísico, que tentará sempre mediar os conflitos entre nossos impulsos mais intensos e as exigências da realidade.
Pensando assim, torna-se fundamental pensar que este ego narcísico, torna-se uma importante fonte de resistência às mudanças na esfera individual, quanto no âmbito do pensamento científico e moral.
           Dentro desta perspectiva, vemos como função ética da psicanálise enquanto prática intensiva em consultório, contribuir para que seja viável suportar a angústia produzida pela incerteza e pelo não saber, mantendo no espírito humano, uma abertura possível deste conhecimento e por consequencia o fortalecimento e evolução.

Fluoxetina.

Hoje, depois de uma sessão, recordei dos efeitos da Fluoxetina. Na verdade em alguns tratamentos utilizam este medicamento. Diante disso resolvi pesquisar alguns artigos guardados sobre essa droga.
As ações da fluoxetina resultam de um bloqueio altamente seletivo da recepção da serotonina nos neurônios. Com isso há uma elevação da concentração de serotonina ativa em áreas críticas do Sistema Nervoso Central. Além disso, apresenta uma ação reguladora  e pode normalizar a densidade e a função dos receptores 5HT1A 5HT2 centrais em pacientes com depressão.



A fluoxetina parece ser tão eficaz quanto os antidepressivos tricíclicos no tratamento da depressão e revela vantagens sobre estes com relação a tolerabilidade. Devido à sua especificidade a fluoxetina não apresenta muitos dos efeitos associados. Cardiotoxidade, sedação, ganho de peso e efeitos anticolinérgicos, próprios dos antidepressivos tricíclicos, não costumam ocorrer com a fluoxetina.
Após a administração por via oral, a fluoxetina é bem absorvida pelo trato gastrointestinal e atinge pico plasmático em aproximadamente 4-8 horas. A presença de alimentos parece retardar, mas não inibir, sua absorção. A fluoxetina é primariamente metabolizada no fígado à norfluoxetina, um metabólico ativo que garante meia vida longa a droga (7 a 15 dias).
A excreção é realizada, na grande maioria das vezes, por via renal. Apenas uma pequena quantidade da droga é eliminada nas fezes.
Não há até o momento estudos adequados e bem controlados em mulheres grávidas. Há relatos de excreção da fluoxetina no leite materno. A segurança e eficácia da droga em crianças não foram estabelecidas. Em adultos a droga é bem tolerada e as reações adversas mais comumente observadas estão relacionadas com o sistema nervoso (ansiedade, insônia, sonolência e fadiga) e com o trato gastrointestinal (diarréia, náuseas e anorexia).
Experiências com a fluoxetina são amplamente divulgadas na literatura e têm demonstrado sua eficácia no tratamento de adultos com múltiplos estados depressivos, transtorno do pânico, transtorno obsessivo-compulsivo, transtornos da alimentação, transtornos de personalidade ( na irritação e impulsividade) e abuso de drogas.
Alguns relatos mais recentes sugerem que seu uso também possa ser eficaz no tratamento, por curto período de tempo, de crianças e adolescentes com transtorno obsessivo-compulsivo.

As reações adversas apresentadas foram letargia, mudança de peso, boca seca, cefaléia, mioclonias, ansiedade, tiques e queixas gastrointestinais descreveu-se a ocorrência de vertigens, diminuição do apetite, instabilidade emocional, ideação suicida e visão embaçada nas crianças tratadas com fluoxetina.

É quase uma infantilidade, mas é sempre bom recordar que TODO MEDICAMENTO DEVE SER MINISTRADO COM ACOMPANHAMENTO MÉDICO.

A Paixão.

Inegavelmente, dada a carga negativa associada ao conceito de paixão, a afirmativa de que a fonte original das paixões é algo bom, tende a causar estranheza na maioria das pessoas. Por tal motivo julgo fazer algumas incursões. 

Como ocorre com boa parte das línguas naturais, a palavra 'paixão' comporta diversos significados. Na acepção popular em nossos dias, ela designa certos sentimentos fortes, exacerbados, tumultuados, que em geral se associam à afeição votada a pessoas e mesmo a coisas e atividades: 'Matou-se por paixão', 'É apaixonado por carros', 'Tem paixão pelo futebol'. etc.




Do ponto de vista psicanalítico, o termo possui significados mais amplos e neutros quanto ao bem e ao mal. Em seu significado etimológico, paixão se contrapõe a ação. Isso fica mais claro nas línguas inglesa e francesa, em que esses vocábulos, passion e action, estão mais próximos de sua origem latina. Ação atuar, agir; paixão sofrer a ação, recebê-la passivamente.

Nesse sentido básico, pode então dizer-se que ação e paixão são como as faces diferentes de uma mesma moeda?  Nem sempre! Tenha cuidado com afirmaçoes e questione sempre algo "comprado pronto!" Para tentar elucidar o raciocínio, vamos exemplificar assim:

"Sempre que algo age, alguma outra coisa sofre paixão. - Eu bato na mesa é ação; a mesa recebe a pancada paixão. O mesmo fenômeno que para mim é ação, para a mesa é paixão"

Exemplificando parece até inteligivel, mas dadas as grandes transformações por que passou a física em nosso século, não é possível expressarmos em uma linguagem ordinária como a ciência contemporânea caracteriza a matéria.  Lembramos então que noções não mais bastam às novas teorias físicas, logo não existe um estado físico da paixão e sim um estado emocional a qual influencia nossos comportamentos e sintomas físicos.

Podemos, para os nossas intenções, considerar o estado emocional da paixão como: 

1) vontade;
2) pensamento;
3) percepção.

A vontade se exerce quando emocionalmente se deseja algo; 
O pensamento quando ela raciocina, duvida, compara, abstrai etc. Pensamento e vontade assim definidos são, por assim dizer, as "dimensões" ativas de um estado emocional.
A percepção seria, por outro lado, sua dimensão passiva. Isso fica mais claro quando enumeramos as formas gerais dessa percepção:

a) sensações dos corpos (formas, solidez, cores, sons etc.);
b) percepções das operações  (percepção de que está raciocinando, duvidando, querendo, imaginando, sentindo etc.);
c) sentimentos (amor, ódio, tristeza, alegria etc.)

Quando a voltamos nossas atenções para o auto-exame, refletimos, introspectamos, e fica pouco provável não perceber que está raciocinando, ou duvidando, ou querendo algo.

Chegamos, neste ponto a algo um pouco mais direto e esclarecedor pois efetivamente a "paixão" denota destas percepções ou seja ela é oriunda de sentimentos como o amor e o ódio, a alegria e a tristeza, a admiração e o desejo então veja que nem sempre a paixão é algo tão benéfico assim, recorde-se que quando se ouve  sobre a paixão de Cristo, sempre se associa a um grande sofrimento. Percebeu? Então atente-se!.

Voltando à análise do conceito restrito de paixão, enfatizemos que ele preserva o elemento essencial da noção abrangente: a passividade. Amor, ódio, alegria, tristeza e demais paixões são algo que "se apodera" de nós de forma involuntária e muitas vezes angustiante. 

Diante destas breves afirmaçoes podemos concluir que os estados passionais (sejam eles quais forem) acabam nos trazendo uma série de benefícios bem como algumas frustrações e angústias, porém se tratarmos nossos estados passionais com a devida serenidade e buscando a origem destes estados poderemos ter ao invés de grandes decepções grandes e continuas alegrias. A paixão limita-se ao domínio que você exerce sobre ela e da forma com que a conduz. 
Seja prudente com suas paixões, mas principalmente (em momentos de dificuldade) nunca se culpe e sim RESPONSABILIZE-SE!

Até a próxima!

As angústias da angústia.

A angústia  nos termos da teoria vem a fazer articular todo o discurso psicanalítico.
Pessoalmente falando não me agrada a segregação da Psicanálise em "Escolas" desse ou daquele autor.  Se para Freud a angústia é caracterizada pela ausência do objeto desejado, ou pela perda de um objeto, em Lacan ela se relaciona à presença do objeto. Contudo, a um objeto particular, o objeto da psicanálise, o objeto A
Teríamos nós tardes e tardes de debates (regadas a teoria e termos alemães) a respeito dessa ou daquela "escola" mas isso, a meu modesto sentir, seria apenas o exercício do egocentrismo, coisa que não vejo valia terapêutica, enquanto o leigo tenta buscar sugestões através desse texto.
 
Aqui farei uma breve reflexão sobre o conceito de angustia e sua importância na construção da teoria e prática psicanalítica e por obvio na constituição do sujeito em sua individualidade e subjetividade frente ao mundo.
Para começar é importante sabermos da morfologia propriamente dita:

Angústia origina-se do latim "Angor" ou seja ‘angustura, estreitamento, apertamento’.

Desde seus primeiros trabalhos Freud vinha se preocupando com a questão da angústia. Como se origina a angústia? Tudo o que sei a respeito é o seguinte: logo se tornou claro que a angústia de meus pacientes neuróticos tinha muito a ver com a sexualidade(Freud, 1894).

Ainda no século pasado a abstinência sexual é apontada como causa de angústia. Ela ocorreria devido ao acúmulo de tensão sexual. Algumas vezes leremos a palavra sexual (e isso é importante ser lembrado)  porém nem sempre ela se relaciona com o ato genital em si, mas na maioria dos casos, está mais diretamente relacionada com o impulso do desejo de ter, fazer, querer etc..
Em  Projeto para uma Psicologia Científica, 1895 Freud fala que a neurose de angústia teria sua etiologia na má ou não utilização da libido, que assim, se transformaria em angústia de uma forma direta.
Os estados traumáticos  ( Estimulação excessiva e desamparo) se inscrevem de tal forma que deixam uma tendência a serem revividos, esta reprodução da dor é que então levaria a uma repulsa ou em outros termos o  recalcamento (repressão). 
Para dar continuidade a discussão sobre a angústia, faz-se necessário abordar brevemente os conceitos de pulsão (tendência) e recalque (repressão), pois estes nos ajudarão a compreender melhor o que se seguirá. Para aquele colega que prefere algo e teórico, deixo minha homenagem - pulsão (trieb) e recalque (verdrangung) que como falei, para o leigo que lê essa humilde reflexão a valia é apenas informativa.


 Na verdade a pulsão é o instinto que se desnaturalizou (tendência), a pulsão se apóia no instinto, mas não se reduz a a apenas ser ele. 
A pulsão nunca se dá por si mesma – nem a nível consciente, nem a nível inconsciente, ela só é conhecida pelos seus representantes:  Traço Mnemônicos - (Memórias) Afetos (Cuja descarga é percebida como sentimento). Saliento que não existe a tendência passiva ou seja, ela sempre precisa estar ligada a uma fonte, uma pressão, um objetivo ou a um objeto. O objetivo da pulsão (tendência) é sempre a satisfação, sendo este definida como a redução da tensão. Uma pulsão não pode ser nem destruída nem inibida; uma vez tendo surgido, ela tende a lhe coagir para a satisfação.

Neste momento, julgo oportuno citar Lacan quando defende que  
"...não é a falta do objeto que angustia, mas sim a presença dele.." .
Ainda muito contemporâneo, vislumbrou na época o que hoje as traduções da angústia se refletem, que podemos resumir em: preocupo-me mais no que os outros irão "pensar" de mim, do que propriamente a falta desses mesmos "outros".
Perceba: 

 A angústia não está relacionada ao desamparo inicial, mas sim ao amparo que o sujeito recebe, onde se faz enigmático, expectativo, antecipativo e se situa em relação à incerteza do que sou como causa do desejo do outro.

Felizmente não existem respostas corretas ou incorretas, mas, a título de reflexão, procure analisar suas angústias sob a ótica acima e quem sabe algumas delas não se enfraqueçam mais rapidamente assim como a minha se dissolveu, quando descobri que consigo escrever sobre a angústia de ter angústias.

"Que não se esmaguem com palavras, as entrelinhas..." Clarice Lispector
 Boa reflexão!.

Esvazie sua mochila.

Nos ultimos dias do ano, é quase a normalidade que façamos reflexões sobre os rumos que tomamos nos 364 dias anteriores. Talvez esta não seja a esfera correta para fazer certos tipos de comentário, mas se não posso dividir as minhas experiências com meus pacientes, para que realmente eu serviria?
No final de 2009 ou início do ano (não recordo ao certo) assisti por indicação e muita insistência, um filme chamado "UP IN THE AIR" que quando li a sinopse quase desisti. Felizmente fui perseverante.
Não que isso tenho mudado muita vidas, mas algumas coisas interessantes chamam realmente a atenção. Depois de comentários com amigos, percebi que ao assistirem, também acabaram despertando certo interesse....Mais a fundo, pude conferir que o processo Projeção ¹ estava em evidência.
Muitas e muitas pessoas também necessitam mesmo "esvaziarem suas mochilas" e percebi que nem tudo pode ser tirado e somos nós, os profissionais da área, que devemos orientar nessa empreitada.
Para quem não assistiu, abaixo vai um trecho traduzido da conferência do personagem principal.
Quem sabe que o ler, encontre algo interessante, tanto quando eu percebi assistindo.
Feliz ano novo a todos!

¹ Projeção é um mecanismo de defesa do ego no qual os atributos pessoais de determinado indivíduo ou seja emoções de qualquer espécie, são atribuídos a outras pessoas.


"Quanto  a sua vida pesa? Imagine por um segundo que você está carregando uma mochila. Coloque dentro dela todas as coisas que você tem na sua vida ... Começe com as pequenas coisas. As prateleiras, as gavetas, os bibelôs, brinquedos...então você começa a adicionar as grandes coisas. Roupas, utensílios de mesa, lâmpadas, o televisor ... a mochila deve estar ficando muito pesada agora. Ai sim você vai para as maiores. Seu divã, seu carro, sua casa ... Realmente coloque todas estas coisas dentro...coloque tudo dentro desta mochila. Agora vamos preencher os espaços com as pessoas. Comece com conhecidos casuais, amigos de amigos, pessoas ao redor do escritório ... e então você se move para as pessoas da sua confiança que detém seus segredos mais íntimos. Seus irmãos, suas irmãs, seus filhos, seus pais e, finalmente, o seu marido, sua esposa, seu namorado, sua namorada. Vamos leva-los todos para a mochila...Agora, segure-a na mão e a coloque. É é perfeitamente normal se as tiras começarem a cortar seus ombros. 
Não se engane, seus relacionamentos são os componentes mais pesados em sua vida. Tudo isso é muito pesado...Todas essas negociações e argumentos e segredos, as responsabilidades, os compromissos.  
Quanto mais mais lento nos movemos, mais rápido morreremos.  
Não se engane, movimento é vida.
Esvazie sua mochila....

Volição.

Volição (do latim volitione) - É o processo cognitivo pelo qual um indivíduo se decide a praticar uma ação em particular. 
É definida como um esforço deliberado e é uma das principais funções psicológicas humanas (sendo as outras afeto, motivação e cognição) a qual falaremos nos tópicos oportunamente a seguir.  Processos volitivos podem ser aplicados conscientemente e podem ser automatizados como hábitos no decorrer do tempo, sendo eles certos ou errados, neste momento não nos cabe juízo de valor.

 
Para ilustrar e explicar alguns destes processos precisamos resumidamente topografar pelos terrenos da percepção; imagens mentais; Processos mnêmonicos (memória) etc e processarmos as informações antes do ato volitivo propriamente dito, pois uma ou mais distorções e/ou interrupções patologicas durante a fração destes processos, podem acarretar uma ação cognitiva completamente avessa ao que realmente desejamos empreender.

ATO PERCEPTIVO

A sensação (sensibilidade), matéria prima do ato perceptivo, pode ser dividida em:
- sensibilidade externa: consciência do objeto;
- sensibilidade interna: consciência visceral;
- sensibilidade geral: superficial e profunda (refere-se ao sistema osteomuscular e labirinto);
- sensibilidade especial: relacionada aos órgãos dos sentidos.

ALTERAÇÕES QUANTITATIVAS DA PERCEPÇÃO SENSORIAL
AGNOSIA: o indivíduo não consegue identificar as impressões sensoriais que recebe.
ANESTESIA: ausência de percepção.
HIPERESTESIA: estímulos captados de forma exagerada.
HIPOESTESIA: estímulos captados de forma diminuída.

ALTERAÇÕES QUALITATIVAS DA PERCEPÇÃO SENSORIAL
1. TROCA: mudança de uma sensação comum por outra, em geral desagradável. Cacosmia (odor fétido para perfumes agradáveis); parageusia (paladar fétido para alimentos saudáveis); acantesia (dor para alimentos banais).
2. SINESTESIA: Troca da qualidade sensorial por outra. Ver sons ou ouvir cores.
3. DESREALIZAÇÃO: estranheza em relação ao mundo.
4. DESPERSONALIZAÇÃO: estranheza de si próprio.

FALSAS PERCEPÇÕES
a. PAREIDOLIAS: percepções fantásticas em um objeto real (imagens de animais quando se olha para as nuvens, mas o observador sabe que o objeto observado é uma nuvem);
b. ILUSÕES: percepções deformadas do objeto real momentaneamente aceita pelo juízo de realidade.
c. ALUCINAÇÕES: aparecimento de uma imagem na consciência sem um objeto real (imagem alucinatória), com as características de uma imagem perceptiva real e por isso aceita pelo juízo de realidade:
- Alucinações Visuais: podem ser elementares (fagulhas, clarões), diferenciadas (figuras, visões), lilipudianas (diminuídas) e guliverianas (gigantes);
- Alucinações auditivas: são as mais comuns, podem ser elementares (zumbidos, estalidos) e diferenciadas (vozes). Na esquizofrenia as vozes se dirigem ao paciente (primeira pessoa) e na alucinose alcoólica falam dele (terceira pessoa).
- Alucinações olfativas e gustativas: são raras e quase sempre associadas, consistem em cheiros desagradáveis (gás, lixo, animais mortos).
- Alucinações táteis: formigamento, picadas, queimaduras, animais repugnantes, relacionadas ao uso de cocaína e anfetaminas.
- Alucinações cenestésicas: relacionadas a sensibilidade visceral. Por exemplo, o paciente diz que seu intestino está amolecendo e apodrecendo.
- Alucinações sinestésicas: fusão e troca de duas imagens de qualidades sensoriais diferentes. Por exemplo, ver a cor do som.
- Alucinações cinestésicas: relacionada aos movimentos.
- Alucinações hipnagógicas (ocorre ao adormecer) e hipnopômpicas (ao acordar). Não significam doença, pois podem ocorrer em indivíduos sem doenças psiquiátricas.
d. PSEUDO-ALUCINAÇÕES: não possui projeção no espaço e nem corporeidade. Surge como vozes internas ou imagens internas e podem ocorrer nas mesmas situações das alucinações.
e. ALUCINOSES: possuem projeção no espaço externo e ocorre certa estranheza do paciente quando ao fenômeno perceptivo ocorrido, podem surgir no rebaixamento do nível de consciência e em lesões pedunculares e occipitais, assim como no alcoolismo (por exemplo: alucinose alcoólica).
IMAGENS MENTAIS

1. IMAGEM PERCEPTIVA REAL: possui nitidez (imagem clara e bem delimitada), corporeidade (imagem viva, corpórea), estabilidade ( a imagem é fixa) ; extrojeção (o objeto da imagem está fora dos limites do eu) e ininfluenciabilidade voluntária (a imagem não se modifica pela vontade).
2. IMAGEM PÓS-SENSORIAL OU ECO SENSORIAL: - imagem resultante persiste após um estímulo intenso (como acontece quando se olha para o sol e se fecha os olhos).
3. IMAGEM REPRESENTATIVA OU MNÊMICA:- determinada imagem sensorial vivida na memória (introjeção), sem que o objeto esteja presente e por isso possuindo características inversas da imagem perceptiva real.
4. IMAGEM FANTÁSTICA OU FABULATÓRIA: criação da livre atividade imaginativa.
5. IMAGEM ONÍRICA: ocorre nos sonhos (imagem mnêmica e/ou fantástica).
  Características: plasticidade, mobilidade, introjeção, ilogismo, intemporalidade. 

  
MEMÓRIA (PROCESSO MNÊMICO)

Capacidade ou propriedade psíquica de fixar, conservar e reproduzir, evocar ou representar, sob a forma de imagens representativas ou mnêmicas, impressões sensoriais recebidas, transmitidas e conscientizadas sob a forma de sensações.

TIPOS DE MEMÓRIA
1. MEMÓRIA IMEDIATA: desaparece facilmente caso o acontecimento não apresente conotação afetiva ou outro tipo de importância.
2. MEMÓRIA DE FIXAÇÃO: guarda fatos ocorridos nos últimos dias ou semanas.
3. MEMÓRIA DE EVOCAÇÃO: relacionada aos dados mais antigos da vida do paciente.
FASES DO PROCESSO MNÊMICO  (MEMÓRIA)
 
1. FIXAÇÃO: o fato para ser memorizado de ser dotado de uma carga afetiva potencial (positiva ou negativa).
2. CONSERVAÇÃO: período de latência em que se conserva a imagem mnêmica.
3. EVOCAÇÃO: consiste em um ato consciente e esforço intelectual para trazer ao momento presente uma memória.
4. RECONHECIMENTO: consiste na identificação da imagem evocada como acontecimento pretérito, ou seja, identificada como recordação no quadro da situação atual. 

ALTERAÇÕES QUANTITATIVAS
1. AMNÉSIA MACIÇA: esquecimento de grande parte ou de todo o passado.
2. AMNÉSIA LACUNAR: comprometimento de fatos limitados do passado (o indivíduo lembra o anterior e o posterior a determinado período de sua vida).
3. AMNÉSIA SELETIVA: refere-se apenas a um determinado tema.
4. HIPERMNÉSIA: aumento da atividade ou capacidade de notação.
5. HIPOMNÉSIA: incapacidade de reter conhecimentos recentes; falsas recordações, paciente cria histórias sem consistência ou duração para preencher lacunas de memória (confabulações). A hipomnésia de evocação pode ser organogênica (caráter progressivo e irreversível geralmente - estados demenciais) ou psicogênica (globais, lacunares ou seletivas - somente para fatos dotados de carga afetiva - todas reversíveis). A hipomnésia de fixação sem hipomnésia de evocação (o indivíduo se lembra de sua infância e não sabe o que comeu no almoço) geralmente é organogênica, podendo ocorrer no delirium e nos quadros demenciais.
ALTERAÇÕES QUALITATIVAS
1. ALOMNÉSIAS OU ILUSÕES DE MEMÓRIA - São falsas reminiscências, ou seja, imagens mnêmicas de fatos que aconteceram que são deformadas e falseadas pelo paciente.
2. PARAMNÉSIAS OU ALUCINAÇÕES DE MEMÓRIA - imagens criadas pela fantasia do paciente e que nunca ocorreram.


 Fonte: CCS -Centro de Ciências da Saúde/UFSC - BR

O mês emocional.

As vésperas da comemoração anual mais importante para os católicos, resolvi teorizar a respeito da ansiedade que se instala sobre muitas pessoas neste período. A controvérsia de sentimentos e sensações, acabaram me motivando a (por hipótese) tentar divagar um pouco sobre esse assunto específicamente. Podemos começar entendendo os sentimentos ansiosos que acabam por vir a tona nestas datas.
A ansiedade funciona como um alerta das ameaças contra o ego (nem sempre reais).  
Freud descreveu basicamente três tipos de ansiedade. A ansiedade objetiva surge do medo dos perigos reais que realmente ameaçam contra a integridade física do sujeito, mas neste momento não nos é de valia interpretá-la. Os outros dois tipos, a ansiedade neurótica e a ansiedade moral, derivam da ansiedade objetiva.


A ansiedade neurótica surge diante do reconhecimento dos perigos potenciais inerentes à satisfação dos impulsos do id (inconsciente). Não se trata dos instintos propriamente ditos mas do temor à provável punição em conseqüência de algum comportamento indiscriminado dominado por seu inconsciente. Em outras palavras, a ansiedade neurótica é o medo da punição que o sujeito tem ao expressar os desejos impulsivos. Não tenha medo da palavra neurose, quase todas (senão todas) as pessoas a possuem, apenas tenhamos um pouco de respeito e atenção a desproporcionalidade das coisas. Vamos tomar um exemplo, para  que o leitor possa compreender o nosso ponto de vista.: Ayrton Senna certamente possuia um grau dominado de ansiedade neurótica ou seja ele, pelo medo da  "auto-punição" da derrota, acabava preparando-se muito mais do que qualquer outro competidor ou seja a dose de ansiedade neurótica era consumida pela determinação.
    
A ansiedade moral surge do medo da consciência. Quando realizamos - ou mesmo pensamos em realizar - algum ato contrário aos valores morais da nossa consciência, é bem provável sentirmos culpa ou vergonha. O nível de ansiedade moral resultante, depende do quão desenvolvida é a nossa consciência. As pessoas com menos virtudes apresentam menos ansiedade moral.




A ansiedade provoca tensão, motivando o indivíduo a tomar alguma atitude para reduzi-la. De acordo com a teoria de Freud, o ego desenvolve um sistema de proteção - os chamados mecanismos de defesa - que consistem nas negações inconscientes ou distorções da realidade.  Alguns destes mecanismos de defesa no intuíto de obviamente nos defender, acabam nos trazendo mais ansiedade e o circulo se completa.

Tenhamos em mente que uma comemoração natalina, por exemplo, é investida de uma enorme gama de sentimentos, as quais, muitos deles, são completamente anacrônicos. A ansiedade dezembrina além do retorno as lembranças familiares e infantis de Natal ainda nos reserva o fim do ano no calendário Romano. Por ser dezembro o mês do ano mais emocional, não teremos muitas dúvidas, nem receios, em entender que certas sensações são corretas ao pensamento normal. Na verdade o que a meu ver torna-se mais complicado para muitos colegas e obviamente para eu mesmo, é discernir entre o que é pensamento normal e o que é patológico, pois existe a pulsão do sujeito pelo que é patológico e em muitos casos, se faz uso deste subterfugio (por ser menos passível de erros) para apontar superficialmente um caminho e seguir por ele.
O que chega a ser preocupante neste mês em específico, é que em muitas pessoas não obtém o prazer pela preocupação na evitação do desprazer.
Para alguns sujeitos, as lembranças familiares e infantis nem sempre tem a "cor dourada e vermelha" do Natal. Tenho certeza que todos nós conhecemos alguém que acaba se deprimindo nestas épocas, então é de vital importância que o leitor entenda que os certos excessos são cometidos inconscientemente ou seja o impulso transcende os mecanismos de defesa do Ego em busca de satisfação, coisa que nem sempre sociológicamente e moralmente é aceitável.
Ao meu pensar e certamente a todos os pensadores que sigo, a Psicanálise foi criada como instrumento clínico-terapêutico e ainda neste contexto, lembro que a informação pode hoje ser obtida em muitos lugares, porém a nós, é facultado transformá-la ou não em conhecimento. Espero, com este pequeno ensaio, ter contribuído para essa transformação, bem como ter minimizada as angústias de alguém, tanto quanto escrever, contribui para o desaparecimento das minhas. Feliz Natal a todos.