Traços de caráter.

Hoje resolvi escrever e exemplificar um assunto que acredito ser de grande importância para  o desenvolvimento psicológico do indivíduo: Os traços de caráter.
Desde já é importante salientar que a palavra caráter está diretamente relacionada as características emocionais de cada sujeito.
É quase unanimidade entre os profissionais, que, uma das tarefas mais difíceis de nossa profissão é classificar o que é "normal" do que é patológico. Em função da enorme gama de possibilidades, posso resumidamente explicitar que o traço normal de caráter tudo que é uma fonte de prazer para o indivíduo, sem que seja autoprejudicial e que se apresente como socialmente aceitável.

Freud com o apoio de outros psicanalistas desenvolveram uma nomenclatura de tipos carcteriológicos derivada da ligação entre um traço de caráter e uma fase particular do desenvolvimento da Libido (Orais, Anais e Fálicos).
Em sua maioria os traços de caráter predominante, normalmentente surgem na fase Anal da Libido infantil, pela mesma razão, encontra traços em sujeitos desorganizados, sujos ou relaxados com sua aparência ou com tendências de chocar através dela (assim como seus opostos).
A auto-segurança, o Otimismo e a generosidade (assim como seus opostos), tem sido igualmente descritos em pacientes como traços de caráter orais.
A ambição, a necessidade de reconhecimento e admiração (assim como seus opostos) tem sido rotuladas de traços de caráter fálicos. Esta teoria cracterizou a primeira fase do desenvolvimento da psicanálise.

Para melhor ilustrarmos o descrito, daremos o exemplo de uma mulher de vinte e cincos anos, cujo estilo de vida a caridade era o traço de caráter predominante. A paciente procurou o Analista em função de sintomas neuróticos severos. No Curso do tratamento percebeu-se que sua caridade estava tão intimamente relacionada aos conflitos da infância quanto seus sintomas neuróticos ( embora fosse classificada com traços de caráter normal, pois os mesmo não afetavam diretamente a sua busca de prazer e por consequencia eram mais que aceitáveis em sociedade).



Numa fase remota da infância, a paciente ficou separada da mãe por longos períodos de tempo. As circunstãncias dessas separações tornavam-se claras que mesmo quando juntas, sua relação com a mãe deve ter sifo bastante insatisfatória e frustrante. Os laços de grande ambivalência entre ela e a mãe, e os conflitos gerados eram de primordial importância nos sintomas neuróticos da paciente, além disso eram os principais determinantes de sua caridade. Desde muito cedo, fora a protetora dos irmãos mais novos, crianças tão desamparadas quanto ela mesma, e como ela, sujeitas ao temperamento e comportamento imprevisível da mãe. Embora fosse apenas alguns anos mais velha que os irmãos, defendia-os, sustentava suas causas, tentava protege-los dos castigos e consoláva-os em suas tristezas, como se fosse mais sua mãe do que sua irmã. Na vida adulta, sentiu e viveu a a mesma necessidade de ajudar os "pequeninos" pobre e maltratados, devotando-se com ardor as obras de caridade e instituições de proteção animal, a qual ajudava com empenho e grande esforço. Junto a generosidade para com os oprimidos, havia o desprezo e o ódio, igualmente fortes, contra os opressores - O establishment (ordem ideológica).
Aqueles a quem socorria eram inconscientemente comparados a ela e aos irmãos quando crianças. Os que odiava eram inconscientemente aquilo que a mãe fora para eles na infância. A força vingativa, voltava-se contra os opressores tanto quanto estava diretamente relacionada com a imagem da mãe assim o ETERNO ANSEIO DA PACIENTE POR UMA MÃE AMOROSA E ESTÁVEL. Eis aqui um exemplo de traço de caráter normal que deriva, sem dúvida, nas necessidades instintivas e nas frustrações da infância primitiva do paciente.
Espero com este POST ter ilustrado basicamente as devidas importâncias dos processos infantis bem como a relevância de que traços normais de caráter podem ainda assim, as respostas a neuroses da vida adulta.

A Libido.

O termo libido aparece primeira nas cartas enviadas de Freud para Fliess. Nestas cartas ele teoriza
"...a tensão sexual física aumenta até certo ponto de despertar a libido psíquica."
ou seja uma força quantitativa que poderia servir de medida dos processos e das transformações que ocorrem no campo da excitação sexual. É bem explicito na obra "Além do principio do prazer - 1920" que coube a Freud explicar tendência a repetição sexual, que por ele suposta só poderia ser explicada como a energia psíquica ou força a serviço da união. Em 1921 Freud recorre entao a mito de Eros do filósofo Platão para perceber que em sua função, origem e relação com o amor sexual, este mito coincide perfeitamente com a teoria psicanalítica da Libido. Surge os termos: Erótico, Erotização etc..
É importante salientar que o principio do prazer, serve de bússula ao ID (inconsciente) em sua luta contra a libído - força que introduz disturbios nos processos de vida. Desta colocação podemos extrair que, a Libido,  ao mesmo tempo que vem de uma força de reunir, ligar (Eros)  que traz a desordem, o conflito ao se ligar a outro individuo diferente.
Diante disso fica mais fácil entender algumas de nossas tendências de buscar o prazer psíquico/físico. A Libido é energia, busca a satisfação, é móvel (se investe e se desinveste de certos objetos) e se desloca, portanto nossas satisfações podem estar diretamente relacionadas com nossas insatisfações pois como vimos existem processos inconscientes que agem contra a nossa a Libido, sendo este um processo normal pois não interferem na capacidade do individuo de sentir prazer nem mesmo em sua habilidade de evitar graves conflitos com seu ambiente.

Psicanálise e a arte.

" As criações, obras de arte, são imaginárias satisfações de desejos inconscientes, do mesmo modo que os sonhos, e, tanto como eles, são, no fundo, compromissos, dado que se vêem forçadas a evitar um conflito aberto com as forças de repressão. Todavia, diferem dos conteúdos narcisistas, associais, dos sonhos, na medida em que são destinadas a despertar o inteesse noutras pessoas e são capazes de evocar e satisfazer os mesmos desejos que nelas se encontram inconscientes. À parte isto, fazem uso do prazer perceptivo da beleza formal, aquilo a que chamei um prémio-estímulo. Aquilo que a psicanálise foi capaz de fazer consistiu em captar as relações entre as impressões da vida do artista, as suas experiências causais e as suas obras e, a partir delas, reconstruir a sua constituição e os impulsos que se movem dentro dele. Não se deve julgar que o salaz que procura uma obra de arte se anule pelo conhecimento obtido pela análise. A este respeito é possível que o profano espere acaso demasiado da análise, mas deve advertir-se que ela não esclarece os dois problemas que são, provavelmente, os mais interessantes para ele: não esclarece quanto à natureza dos dotes do artista, nem pode explicar os meios de que o artista se serve para trabalhar a técnica artística. " Freud

Psicose Infantil.

O termo psicose é usado ocasionalmente, como eufemismo para loucura alguma vezes sinônimo de esquizofrenia (uma das entidades dessa categoria) e em outras ocasiões como depressão psicótica e neurótica. O termo não qualificado pode receber qualificativos pela diferenciação entre psicoses orgânicas e funcionais.
Psicoses orgânicas: delírio, demência etc
Psicoses funcionais: esquizofrenia, psicose maníaco - depressiva.
A esquizofrenia é, entre as doenças mentais, a que acarreta mais prejuízos. É um distúrbio do psiquismo e da personalidade, que se manifesta com a consciência lúcida, caracterizado por diversas alterações nas experiências psíquicas nos padrões de pensamento e humor.

 1.1. Quadro clínico:  
As características iniciais da esquizofrenia são delírios, alucinações, linguagem e comportamento desorganizados, como sintomas positivos. Apatia marcante, pobreza de discurso, embotamento ou incongruência de respostas emocionais e retraimento social com falta de iniciativa. A sintomatologia é muito parecida à do adulto sendo o início infantil mais grave do que no início adulto.
  Aborda-se a seguir os sintomas  essenciais da esquizofrenia infantil:  
Ø       Distúrbios do conteúdo do pensamento:  
As alucinações e delírios são os primeiros aspectos percebidos. São ego sintônicas, ou seja, crianças esquizofrênicas nem sempre vêm como invasivas e estranhas. Lidam bem com os sintomas que lhe parecem naturais . O desenvolvimento das alucinações e delírios se torna de maior complexidade com o tempo.  
Ø      Distúrbios da cognição:  
Esquizofrênicos sofrem de um prejuízo leve da cognição. As crianças submetidas a testes psicológicos de inteligência generalizada apresentam um QI abaixo da média ( entre 80 e 90 ). Nas medidas de aspectos específicos da cognição, os prejuízos podem ser graves, e, em outros aspectos, pode haver resultados elevados.  
Ø       Distúrbios da afetividade:  
Observa-se rigidez das disposições afetivas, fixação de certos interesses e ausência ou diminuição da atenção espontânea, inadaptação ao real e a fuga à realidade, acentuada violência nas reações de angústia ou defesa, estereotipias no comportamento, nas ocupações, na linguagem , bem como fenômenos de perseveração e ecolalia. Todos esses fenômenos ocorrem de forma particular à personalidade de cada indivíduo.  

Ø      Incapacidade qualitativa na Interação Social:
Ignora presença de pessoas e de sentimentos (uso instrumental de pessoas e comportamento invasivo);
Não busca apoio ou conforto por ocasião do sofrimento quando isto ocorre se dá de modo estereotipado;
Imitação ausente ou comprometida ;
Ausência ou deficiência no contato olho a olho.

Ø      Incapacidade qualitativa na comunicação verbal e não verbal e na atividade imaginativa:  
    Ausência de modo de comunicação, como balbucio comunicativo, expressão facial, mímica ou linguagem falada; ausência de contato visual, retraimento ao contato físico, ausência de antecipação
Alterações na linguagem que se estende da anormalidade no uso dos pronomes pessoais até a ecolalia ou até a ausência absoluta da fala;
Incapacidade marcante na habilidade para iniciar ou sustentar uma conversa com outros e também age como se fosse surdo; 
 Opõe-se ao aprendizado.  



A avaliação de terapia ocupacional possui variáveis que dependem de vários aspectos como grau de comprometimento do paciente e idade com que a criança chega ao serviço.
Na ocasião da avaliação, é necessária a presença dos pais ou responsáveis por se tratarem de crianças que não possuem autonomia.
A avaliação deve ser uma constante, especialmente porque, no primeiro contato não é possível estabelecer um vínculo satisfatório, aspecto esse primordial para a observação da criança.
É  indispensável uma colheita de história adequada para se fazer uma correta formulação diagnóstica. O profissional precisa ter conhecimentos adequados e atuais quanto ao desenvolvimento normal e anormal da criança.
Na avaliação as informações estão baseadas em dados objetivos, que proporcionam indentificação das capacidades  para tarefas lúdicas, sociais, perceptivas e motoras e limitações na qual pode-se traçar a proposta de tratamento.
As crianças com transtornos psiquiátricos apresentam vulnerabilidade no comportamento, afetividade e relacionamento interpessoal, estes aspectos devem ser vistos em primeiro lugar. Estas crianças apresentam déficit na área de destreza, por isso é necessário que realize, também, a avaliação motora e visuomotora.
Deve-se prestar atenção ao conteúdo, tipo e qualidade das brincadeiras da criança. Muitos psicóticos parecem privados da capacidade de iniciar e organizar suas próprias brincadeiras. É útil perguntar o que faz a criança quando entregue à sua própria iniciativa. Se ela brinca de maneira adequada ou tende a se envolver em atividades repetitivas ou esterotipias motoras.  

A intervenção terapêutica – ocupacional  para com o psicótico infantil objetiva essencialmente a busca de possibilidades que auxiliem esses pacientes a participarem de forma mais consistente em seu meio.
Diversos aspectos estão envolvidos no processo de tratamento oferecido pela terapia ocupacional, esta deve estar direcionada para as limitações da criança, como incapacidade de abstração, de expressão  verbal, na interação social recíproca, etc.
Existem diversas orientações teóricas que oferecem um suporte às práticas do terapeuta ocupacional: desenvolvimental, comportamento ocupacional, integrativo-sensorial, aquisicional, biomecânica, reabilitativa e psicanalítica. Esta última com uma visão psicodinâmica, na qual a terapia ocupacional enfatiza a relação terapêutica e as atividades como fundamentais no processo de tratamento. Isso é considerado por que é através da comunicação que se estabelece no nível da linguagem do concreto (ação e expressão) e através do vínculo que se estabelece com o paciente que pode-se chegar a uma compreensão e intervenção na dinâmica do processo experienciado pelo paciente.
A intervenção terapêutica atenta para dois aspectos básicos presentes na realidade e dificuldade da criança psicótica, tanto o lado afetivo/emocional quanto os aspectos cognitivos; de uma forma integrada, através da realização das atividades e da relação que se estabelece. Geralmente, na dinâmica firmada no processo de terapia ocupacional, as interpretações verbais em relação à criança não estão presentes. Todas as compreensões do psicótico pelo terapeuta devem ser dinamizadas de forma contextualizada nas ações que se processam durante o tratamento.
Um objetivo difícil e ao mesmo tempo básico para o desenvolvimento do tratamento do psicótico em um processo de terapia ocupacional, diz respeito ao estabelecimento da relação terapêutica  o qual será o caminho a seguir possibilitando o tratamento em si e dando um grande primeiro passo de sucesso obtido entre a criança e o terapeuta.
As sessões de terapia ocupacional concedem um reconhecimento recíproco do nível e da forma com que a criança é capaz de se mostrar, através dos materiais que explora, da rotina que se forma , do contato que realiza ou não com o terapeuta, etc. geralmente, a criança psicótica não apresenta habilidades básicas, sendo o seu fazer tão escasso quanto o seu contato com o mundo externo, tornando de fato a formação da relação um investimento especial. O reconhecimento do terapeuta pela criança como lhe for possível, já faz parte das metas do tratamento.
Outro objetivo a ser enfatizado é a necessidade da compreensão pela criança dos limites e espaços que podem ser utilizados por ela e pelo terapeuta.
Um terceiro aspecto a ser colocado relaciona-se à procura de aproximação ou chance de uma situação de brincar que precisa ser contextualizado quanto ao que se pensa, ou seja, deve-se considerar as maneiras primárias da brincadeira, percebendo-as como forma de comunicação da criança e expressivas no campo da abstração e simbolização. 

Fonte: PsiqueWeb.

Quanto custa sua frustração?

Do ponto de vista da psicologia dos instintos (psicanálise), o termo frustração refe­re-se geralmente à recusa de satisfação pela realidade. Às vezes, é chamada de frustração externa, para distingui-Ia da contrariedade de impulsos por forças no inconsciente.

Quando, no caso de uma pessoa mental­mente saudável, o meio não está preparado para a aceitação de um desejo, este último pode ser mantido em suspenso até que a realidade seja adequadamente disposta ou até que se apresente alguma forma de satisfação substituta. 


 
Quando a exigência instintiva não pode ser normalmente manipulada pelo sujeito, ele po­derá mobilizar todas as suas energias para a satisfação dessa exigência, ignorando os cos­tumes e preceitos morais do seu meio e é nesse momento que a frustração "cobra seu preço" e que,  socialmente, surgem os maiores problemas.
Podemos traçar um paralelo com as expectativas: Quanto maior e mais surreal elas se tornam, maior as possibilidades de nos decepcionarmos.
Parafraseando Freud é recomendado lembrar que: " refugiando-se na vida fantasiosa, onde criará novas formações de desejo, o sujeito arrisca-se a reanimar desejos primitivos, sendo muitas vezes, indesejáveis ao momento terapeutico.

Como falamos em  frustração externa devemos comentar sobre a  frustração interna, que significa o rechaço de impulsos instintivos por forças de desejos inconscientes , principalmente pelo superego (Aspirações, Moral, Costumes etc). 

Resumidamente, deveremos diferenciar as nossas frustrações externas (vida saudável) dos Impulsos por forças inconscientes, para que possamos dar o tratamento e a devida atenção proporcional a cada angústia, sendo que estas diferenças são cruciais nos processos seguintes de tratamento, pois se for dada valoração desproporcional, "o alto preço da frustração", nos tornará psiquicamente incapazes de saldarmos nossas "dividas emocionais" presentes ou mesmo futuras.
Um ótimo dia a todos!

TDAH - Transtorno de Deficit de Atenção e Hiperatividade.

O indivíduo que tem TDAH (DDA), é inteligente, criativo e intuitivo mas não consegue realizar todo seu potencial em função do transtorno que tem 3 características principais: desatenção, impulsividade e hiperatividade (ou energia nervosa).

Tem dificuldade em assistir uma palestra, ler um livro, sem que sua cabeça “voe” para bem longe perdida num turbilhão de pensamentos. Comete erros por falta de atenção a detalhes, faz várias coisas simultaneamente, ficando com vários projetos, tarefas por terminar e a cabeça remoendo todos os "tenho que". Quando motivado e/ou desafiado, tem uma hiperconcentração.
É desorganizado tanto internamente (mil pensamentos e idéias ao mesmo tempo), como externamente: mesa, gavetas, papéis, prazos, horários...
A impulsividade domina seu comportamento. Pode falar, comer, comprar, trabalhar, ficar em salas de bate papo da Internet, beber, jogar... compulsivamente. Fala e/ou faz o que lhe vem na cabeça sem pensar se é adequado ou não, podendo causar muitos estragos. Costuma ser impaciente, irritadiço, "pavio curto" e com alterações de humor.
Muda com facilidade de metas, planos... é comum ter mais de um casamento ou relacionamento estável.
O TDAH (DDA) é um transtorno neurobiológico crônico, na sua grande maioria de origem genética.




Apesar do TDAH (DDA) atingir até 6% da população, é até hoje muito desconhecido, inclusive por muitos profissionais da saúde, que tratam apenas das suas conseqüências.
A falta do diagnóstico e tratamento correto geram grandes prejuízos na vida profissional, social, pessoal e afetiva do indivíduo sem que ele saiba o porquê. Sem tratamento, outros distúrbios vão se associando (comorbidades), a auto-estima fica cada vez mais comprometida, e a pessoa vai se isolando do mundo, sentindo-se muitas vezes um "estranho fora do ninho".

A imagem da sede.

Ainda dia destes li uma matéria a respeito da exclusão do Narcismo do CID 10 (Codigo Internacional de Doenças). Diante da eminência desta exclusão, é importante relembrar este pequeno artigo. 
O narcisismo, conceito psicanalítico cujo nome Freud tomou de empréstimo ao mito grego de Narciso, o jovem que apaixonou-se por sua própria imagem espelhada na superfície de um lago, ficou associado, em nossa cultura, à idéia de vaidade que, segundo o dicionário católico é, dentre os sete pecados capitais, o mais grave, pois  todos os outros derivariam deste.
Conforme o mito explicita, a idéia de narcisismo está vinculada à questão da imagem e esta, por sua vez, à noção de identidade. A imagem corporal é o primeiro esboço sobre o qual irão se desenhar, posteriormente, as identificações constitutivas da personalidade. 
Assim sendo, não podemos deixar de fazer uma reflexão acerca da função primordial da imagem no mundo contemporâneo, motivo pelo qual alguns teóricos enfatizam que vivemos no interior de uma cultura do narcisismo, entendendo-se por isto, uma cultura voltada para a imagem e para o individualismo.
Lembramos o comercial que dizia: imagem é nada, sede é tudo. Obedeça sua sede, beba o refrigerante que você deseja.” O que se pode depreender desta palavra de ordem? Obedeça a sua sede, sua pulsão (tendencia), seu desejo e não àquilo que um outro refrigerante  promete fazer por sua imagem. É tão grande o poder da imagem em nossa cultura, que o sucesso do referido comercial decorre da estratégia de utilizar a antítese, imagem é nada, para antagonizar seus concorrentes que afirmam: imagem é tudo.
Se a ênfase na imagem é tudo, alimentando o que poderíamos chamar de uma vertente patológica do narcisismo, cresce no Brasil uma cultura de idolatria ao corpo perfeito, alavancando uma economia da medicina cosmética que movimenta elevadas quantias em dinheiro, promovendo um efeito avalanche que colocou nosso país como campeão no ranking das cirurgias plásticas de caráter exclusivamente estético realizadas no mundo, ultrapassando os Estados Unidos que, até então, detinha este título. 

 
Quanto ao aspecto do individualismo observamos que se encontra associado à idéia de egoísmo que, por vezes, é utilizado como sinônimo para o pecado da vaidade.
Ego-ismo, amor exclusivo a si mesmo opõe-se a altru-ismo, amor ao outro. É esta exclusividade do amor a si mesmo com exclusão do outro, que vai tornar impróprio este amor.
Que dizer então do amor próprio? Quando se diz de alguém que ele não tem amor próprio, que não se orgulha de si mesmo, queremos dizer que esta pessoa tem uma baixa auto estima, ou, em linguagem psicanalítica, uma falha narcísica
A falta do amor próprio, do amor bem medido por si mesmo, conduz ao aprisionamento do indivíduo no desejo do outro, alienando-se nele, dessubjetivando-se e passando, irremediavelmente, à condição de objeto. É neste sentido que é preciso afirmar que o narcisismo pode alimentar a vida ou a morte.
Os  conceitos de narcisismo, ego e identidade encontram-se estreitamente ligados. É pelo olhar do outro, especialmente este outro materno que encarna todas as nossas possibilidades de satisfação, prazer e segurança, que aprendemos a saber quem somos. Se o olhar deste Outro brilha por nós e se em algum momento pudermos nos sentir capazes de preencher  este Outro de alegria, estaremos constituindo nosso amor próprio, aprendendo a ler no espelho do olhar do Outro, que nossa existência vale a pena e tem um sentido, nem que este sentido seja, num primeiro momento, preencher os anseios deste outro que significa tudo para nós, condição mesma de nossa existência.
 É fundamental que em algum momento a criança possa sentir-se majestosa, como também  é primordial, para que este amor não se torne impróprio, mortífero e excludente, que um terceiro termo, aquele que virá exercer a Função Paterna, interdite esta vivência de satisfação absoluta, procedendo cirurgicamente a uma ferida narcísica.
O narcisismo mortífero se alastra do nível individual para os processos grupais, atingindo fenômenos sociais de grande alcance e da maior gravidade para o destino da humanidade. Absolutismo, totalitarismo, intransigência, intolerância, encontram suas raízes em caminhos complexos. 
Diante disso o desafio é poder transformar o sofrimento deste amor ferido em compaixão, em arte compartilhada de conviver com as cicatrizes, vivenciando-as como fruto deste combate entre vida e morte e transformá-las em resto, à partir do qual, toda criação humana possa se abrir em favor da vida.
Uma das principais funções de nosso ego narcísico é nos fornecer uma ilusão de permanência e continuidade, que nos permita tocar a vida no dia a dia do tempo medido por nossos relógios. Assim, quanto mais se aguça os acontecimentos de um mundo onde tudo é consumido e se torna superfluo em tempo recorde, maior a tendência de um endurecimento deste ego narcísico, que tentará sempre mediar os conflitos entre nossos impulsos mais intensos e as exigências da realidade.
Pensando assim, torna-se fundamental pensar que este ego narcísico, torna-se uma importante fonte de resistência às mudanças na esfera individual, quanto no âmbito do pensamento científico e moral.
           Dentro desta perspectiva, vemos como função ética da psicanálise enquanto prática intensiva em consultório, contribuir para que seja viável suportar a angústia produzida pela incerteza e pelo não saber, mantendo no espírito humano, uma abertura possível deste conhecimento e por consequencia o fortalecimento e evolução.