Psicanálise Clínica

Av. Protásio Alves 2599 Conj. 306 - F: 9288-0000(Claro)/ 8160-1127 (TIM)

Estimulando o "pézinho"


Este texto se presta a tentar jogar um pouco de luz a respeito da relação teórica da Psicanálise com relação as doenças Psicossomáticas.
 O objetivo é tentar levar ao conhecimento do leitor de uma maneira básica e inteligivel alguns aspectos importantes desta temática no campo analítico. 
Muitos psicólogos/Psicanalistas, por desconhecerem as produções teóricas dos autores contemporâneos, permanecem reféns do conceito popular de doença psicossomática segundo o qual afecções dessa natureza são distúrbios orgânicos motivados por conteúdos de ordem psíquica. 
Essa é uma definição  pouco útil e que não faz jus à complexidade e delicadeza do problema.
É muito comum encontrar também não apenas leigos, mas estudantes e profissionais de psicologia e até mesmo psiquiatria que irrefletidamente pensam o sintoma psicossomático como sendo ocasionado apenas pelo fato de o indivíduo não poder se expressar pela fala. Como veremos, tal concepção não é de todo equivocada, mas requer maiores esclarecimentos para que não se seja levado ao absurdo de recomendar uma mera explicitação desordenada (catarse) como estratégia terapêutica para pacientes psicossomáticos. Caso não queiram ler o que virá a seguir, fixem na memória apenas a fórmula seguinte.:

Sintoma psicossomático é diferente  de Histeria Conversiva (Fenichel 2005)

Esperamos também que os conteúdos que aqui serão abordados possam auxiliar àqueles que efetivamente sofrem com sintomas psicossomáticos a discernirem melhor os fatores que podem ter levado ao desenvolvimento da enfermidade e motivá-los a buscar a ajuda de um psicanalista.


Mesmo não entrando na profundidade teórica dos autores estudados, faremos a tentativa de compreensão, baseada na experiências clínicas destes autores, na qual experimentaram (e experimento) o
contato com a psicossomática no interior do dispositivo analítico padrão,  na qual, começam a aparecer em em consultório , pacientes cujas manifestações mais proeminentes são de ordem orgânica, levando -os a buscar entender o significado desses fenômenos na clínica.

Para tal entendimento, a maioria dos autores relata uma singularidade ao observarem em pacientes um modo peculiar de lidar com os próprios afetos. Tais indivíduos pareciam agir como se seus afetos não existissem. Seu discursos eram mecânico, sem vida e frente a acontecimentos intensos de sua existência eram capazes de reagir com toda a resignação do mundo. Ao mesmo, comportando-se dessa forma, faziam com que no analista brotassem os mais vivos afetos. 
Diante destas observações se pode observar que a tríade se faz presente: O sintoma psicossomático, a Ausência de afetos e a Estimulação de afetos no analista.


Buscando sustentação na obra de Freud a respeito ds afetos, se encontra a teoria clássica :

"Os afetos são manifestações psíquicas do afluxo (movimento de eletricidade a um ponto; Chegada de grande quantidade) de energia pulsional" 
 
Na medida em que o acúmulo dessa energia gera um afeto desprazeroso, o indivíduo deve empregar estratégias para descarregá-la. Todavia, como a descarga total é impossível, a saída é fazer essa carga energética (energia psiquica) circular entre representações  de modo a “drená-la”. 
Essa é a estratégia utilizada pela maior parte de nós. 
O que contemporâneamente poderemos entender é que este processo natural de "drenagem" dessa energia, se pode ser aprendida e  empregada se o indivíduo, ainda bebê, tiver experimentado um ambiente que utilizou essa mesma estratégia para com ele antes que tivesse capacidade para tal. 
Sejamos mais claros:
Logo ao nascer, o bebê não dá conta de drenar a energia psíquica pulsional que desde o nascimento já dá o seu ar da graça porque ele ainda não possui representações  para as quais drenar o afluxo energético. Mas a mãe as possui! E por possuí-las, ela deve exercer para o bebê a tarefa denominada por McDougall de “pára-excitação” a qual, em termos simples, significa fornecer ao bebê palavras, significantes, representações aos quais o bebê possa investir a energia pulsional e se libertar do poder ameaçador dela. Para dar um exemplo, as mães fazem isso sem saber quando brincam de nomear as partes do corpo da criança: 
“Esse é seu pezinho; esse é seu narizinho” e durante as “conversas” com o bebê ainda quando esse não sabe falar. É importante lembrar que para que a palavra cumpra sua função de representação, o bebê não precisa enunciá-la, basta que ele a ouça. 



Pois bem. Nem todo indivíduo conta com um ambiente que funciona adequadamente assim. E aí, quando o bebê não conta com essa função de para-excitação, ele é deixado na "cova dos leões pulsionais."
Não é que a pulsão seja naturalmente má. É que ela é pulsão, ou seja, força ininterrupta que demanda trabalho. 
Então, se não há ferramentas (representações) com as quais trabalhar, logo o indivíduo só tem contato com a força! E essa força excede a tal ponto as capacidades de resistência do bebê que passa a ser sentida por ele como uma angústia inominável, isto é, que não se tem palavras para descrever. 

Desafetação

Em tais casos, a única saída que resta para o bebê se constituir minimamente é se cegar para não ver a pulsão (energia de trabalho mental), o que se chamae de “ejetar o afeto do psiquismo” ou “desafetação”. 
É óbvio que a pulsão continua presente, mas o indivíduo passa a viver como se ela não existisse, de modo que ele utiliza dela apenas o mínimo suficiente para se manter vivo, mas sem fazer dela uso libidinal  (desejo) algum, concebendo-a como potencialmente aniquiladora. 
São esses os pacientes somatizantes que se encontra em clínica. É justamente por isso que eles aparentam não sentir nada. É que qualquer afeto um pouco mais intenso é sentido por eles como semelhante à situação de desespero que viveram quando bebês. Eles utilizam então a mesma defesa que outrora: ejetam do psiquismo o afeto, tornando-se desafetados.

O problema é que o afeto que foi expulso do psiquismo não foi destruído, mas retornou a seu lugar de origem. Que lugar é esse? O próprio corpo. Entretanto, o corpo não é capaz de suportar tamanha carga energética, pois nós não somos apenas corpo. Somos corpo e psiquismo. Assim, boa parte dessa carga energética deveria ter sido distribuída entre as representações. Por não dar conta de comportar tamanho volume afetivo ressomatizado, o corpo irá sofrer prejuízos. Com efeito, quanto maiores forem as cargas afetivas ressomatizadas, maior impacto o corpo sofrerá e mais graves serão as lesões produzidas.

Tratamento

Acerca da estimulação de afetos no analista no tratamento de pacientes desafetados, trata-se de um fenômeno que ocorre não apenas na relação com o analista, mas também com outras pessoas do convívio do indivíduo. Se expressa pela tendência de pacientes desafetados em fazer com que o outro experimente os afetos que não lhes são possíveis de serem experimentados na esperança de comunicar ao outro o estado desesperador em que o indivíduo se encontra por não poder experimentar os próprios afetos. É como se o indivíduo estivesse dizendo: “Sinta por mim, já que eu não posso…”(L.Napoli).

 O fato de o paciente desafetado não ter contado com um ambiente que exerceu de maneira efetiva a função de para-excitação não significa que ele seja pobre em representações. Essas podem inclusive ser mais abundantes do que em pacientes neuróticos. A diferença é que no primeiro caso elas são pouco investidas afetivamente.





baseado no texto de L. Napoli.
Postado por CLEBER MARTINS

Nós e a Música

Hoje, domingo ensolarado, antes de sair para uma caminhada resolvi ligar a TV e assisti um debate sobre a "ditadura musical" que acontece com o gênero sertanejo no interior de SP.
Não me cabe opinar a respito do meu gosto pessoal mas compreendi e me parece plaúsivel entender que os gêneros sertanejos, Axé e Funk são oriundos de algo ouvidos por nossos pais.
O Rock propriamente dito sempre foi algo "contraventor", logo não era popular o suficiente pra "perecer" gerações, coisa que os outros gêneros sim.
O interessante perceber é que, já que ambos são oriundos destes gêneros, foram ouvidos por nossos pais. Dificilmente nossos pais ou avós não simpatizavam com um dos gêneros ou as vezes a mãe um e o pai outro.

Diante disso, meu texto se vale para tentar creer que a "Geração Y" e/ou a Passada simpatiza com Funk, sertanejo ou os dois, pois inconscientemente são acalmados com a averbação do gostos familiar, pois nem mesmo a letra é levada em consideração, somente a "massagem auditiva" que se torna prazer ao conectar inconscientemente:
"Meu Pai/Mãe gostavam disso"
Na verdade a música está deformada em sua essência, mas mesmo assim permanece esta sensação para gerações posteriores. Obvio que este texto é apenas uma observação minha, mas consider no mínimo Plausível.

Não se ofenda, não torne este texto político e com ele não emiti meu gosto pessoal..apenas foi minha percepção. Se gostou, caso goste..COMPARTILHE, caso não goste DESCONSIDERE.
Postado por CLEBER MARTINS

O Ser do Humano


É muito comum circular pelas redes sociais fotos de cães e gatos mal tratados ou que precisam de adoção. Estas ações são nobres com estes seres vivos em apuros. Na verdade, nenhum ser vivo mereçe isso...
Mas o que você está fazendo com o seu semelhante?
Ser humano não precisa de adoção?
As crianças não precisam de amparo e alimentação?
Você não se solidariza, pois elas são mais "difíceis de adestrar"?
Você finge "cegueira social" pois eles não se contentam apenas com ração e água?
Você chama atenção para os animais, pois (ainda) não existe "Hoteis para crianças"na qual quando você viaja ele ficaria lá?
Com tristeza, percebo que o ser humano não compreende (ou foge da compreensão) que o cãozinho de amanhã precisará ser cuidado pela criança de hoje.
Não maltrate nem desampare nenhum ser vivo, mas NUNCA ESQUEÇA que o ser humano faz parte desta fauna.
Diga não ao desamparo e a violência infantil.
Compartilhe este texto e por ele sou responsável (quando reproduzido em sua totalidade, obvio). Feliz 2012. 

Postado por CLEBER MARTINS

Romantismo ou Romancismo?


Ainda estes dias, estava comentando o quão diferentes são estas duas palavras.
Por obvio, se as palavras tem significados diferentes, porque as vezes não conseguimos diferencia-las, as tratando inconscientemente como iguais?

Minha teoria, pode começar a ser fundada pela etmologia da palavra Romancismo que diz:

"Conjunto de características que assinalam a literatura romântica; Ficções ou descrições românticas."


Para resumir e exemplificar melhor, pense:

Uma pessoa ROMANCISTA lê mais, fantasia mais, projeta mais, identifica-se mais e FAZ menos. 
Enquanto uma pessoa ROMÂNTICA lê menos, fantasia menos, projeta menos, identifica-se menos mas por consequência FAZ mais.

Perceba então prezado leitor, que inconscientemente, muita vezes fazemos atos ROMANCISTAS acreditando estarmos sendo ROMANTICOS. 

E você....é Romantica ou Romancista ??
 
Por favor, clique em "Curtir" na nossa página no Facebook
www.facebook.com/ClinicaCleberMartins


Postado por CLEBER MARTINS

Um olhar emocional sobre a comida.

A sociedade atual está nos transformando em máquinas de competitividade. Não somos mais seres, que dirá humanos. Somos, sim, consumidores e, como a própria palavra diz, estamos realmente levando ao pé da letra e nos consumindo.

Ser feliz? Muitos se perguntam: O que é isso mesmo? Quando foi a última vez que senti plenamente esta emoção?


Precisamos ser os mais bem-sucedidos profissionalmente, esteticamente e financeiramente porque, para poder consumir tudo o que nos torna "melhores" e mais "bonitos", é preciso muito dindim.

Queremos as roupas, joias, cabelos das atrizes das novelas, fazer lipo, turbinar os seios e de quebra somos convencidos também a comer tudo o que tiver um apelo marqueteiro. Somos eternamente insatisfeitos com nosso corpo e confundimos estética com qualidade de vida e saúde.

Estamos sempre correndo atrás de algo, como se sempre faltasse alguma coisa, e nos sentimos vazios. Como todas estas coisas geram muito estresse e um sofrimento emocional muito grande! E adivinha como preenchemos o vazio? É, eu sei, eu sei, mas infelizmente é com comida.

Partindo do princípio de que fome é uma necessidade orgânica e fisiológica e de que comida é a energia de que precisamos para manter nosso corpo vivo e funcionando, responda você mesmo: Toda vez que você ataca a geladeira ou se alimenta, está realmente com fome?




Veja bem, quando um animal sente sede, ele busca água, quando sente fome, caça seu alimento e come até sentir-se saciado. Nós, seres humanos, somos privilegiados, somos inteligentes, temos consciência de nossos atos e também somos dotados de livre arbítrio e poder de escolha. Então, temos tudo para fazer boas escolhas. Porém somos levados por nossos desejos e emoções não resolvidas.

Ensino algumas técnicas básicas para meus pacientes poderem se livrar dessa armadilha:

- Coma a cada três horas, assim não terá fome exagerada.

- Toda vez que sentir o impulso de comer fora de hora, pergunte-se: Estou com fome ou com vontade de comer? Estou com fome de quê? O que me incomoda neste momento? Traga para o consciente a situação e tente resolver.

- E se ainda for difícil resistir, tenha sempre à mão alimentos pouco calóricos para dar trabalho para os dentes. Uma dica legal é uma maçã picadinha, um pepino, e comer devagar. Isso reduzirá a ansiedade pela mastigação.

- Faça uma atividade física para canalizar o estresse (caminhada, musculação, ioga, dançar).

- Alimente também seu espírito, tire um tempo para olhar para dentro de si, para meditar, orar ou até mesmo contemplar a natureza somente.

- Seja persistente, esses episódios não duram muito tempo, em média 10 minutos.

É urgente aprendermos a lidar com as nossas emoções, pois é muito comum nos alimentarmos compulsivamente, mais por ansiedade do que por fome. Esperamos que o alimento nos traga novamente uma sensação de bem-estar e caímos num ciclo vicioso. E depois o que nos resta é aquela sensação de estufamento, de culpa e uma enorme ressaca moral.

Lembre-se, emoção resolvida não vira comida.

Feliz Natal a todos.
Postado por CLEBER MARTINS

ENTREVISTA PAMPA SAÚDE

Entevista dada ao Programa Pampa Saúde (Rede Record) sobre os perigos da Vigorexia/Sindrome de Adonis. O verão está aí... Por favor ouça com atenção e compartilhe:
 
Postado por CLEBER MARTINS

O Mito da Felicidade


A pressão por ser feliz pode atrapalhar seu caminho para viver melhor. Novos estudos propõem como cada um pode encontrar seu próprio bem-estar.

Fotos: reprodução

A resposta de qualquer pai ou mãe, questionado sobre o que deseja para os filhos, está sempre na ponta da língua: “Só quero que sejam felizes”. A frase não deixa dúvidas de que, numa sociedade moderna, livre de muitas das restrições morais e culturais do passado, a felicidade é vista como a maior realização de um indivíduo. Até governos nacionais se viram na obrigação de fazer algo a respeito. Neste ano, a China e o Reino Unido anunciaram a intenção de medir o grau de felicidade de seus habitantes. Os governantes, espera-se, querem o melhor para seu país, assim como os pais querem o melhor para seus filhos. Mas a ambição de sempre colocar um sorriso no rosto pode ter um efeito contrário. A pressão por ser feliz, condição nada fácil de ser definida, pode acabar reduzindo as chances de as pessoas viverem bem.
“Perseguir apenas a felicidade é enganoso”. Segundo i estudo, a felicidade pode tornar a vida um pouco mais agradável. E só. Em seu lugar, o ser humano deveria buscar um objetivo mais simples e fácil de ser contemplado: o bem-estar.
A felicidade (emoções positivas), quem diria, seria apenas um deles, ao lado de propósito, realização, engajamento e relações pessoais (saiba mais no quadro abaixo). “O que eu pensava dez anos atrás era parecido com o que Aristóteles dizia, que havia um único objetivo final, a felicidade”, afirma o americano. Mas ele observou que, muitas vezes, decidimos fazer coisas que não melhoram exatamente nosso humor. Como, por exemplo, ter filhos.
O que importa para viver bem
Muitos estudiosos afirmam que a felicidade é só um dos elementos responsáveis por nosso bem-estar. Conheça os outros
Ilustrações: Andrea Ebert; Foto: Eugenio Sávio/ÉPOCA 
Para casais estabelecidos, que sonham com uma família, a notícia de uma gravidez costuma levar pai e mãe às nuvens. O nascimento da criança é motivo de celebração, com direito a vídeo do parto e incontáveis fotos. Mas, segundo pesquisas de opinião, a alegria dura pouco, e nossa percepção de felicidade diminui nos primeiros anos de vida das crianças. Uma provável explicação para o resultado seria que, ao responder ao questionário, somos influenciados por fatores comezinhos, como as noites maldormidas e as fraldas sujas. De qualquer forma, apesar disso, as pessoas continuam a ter filhos porque, mais do que alegria, eles dão sentido a nossa existência.
Eugenio Sávio/ÉPOCA
Grávida de sete meses de Francisco, hoje com 4 anos, Cristiana enfrentou uma tragédia: o pai do bebê, seu namorado, Guilherme Fraga, morreu após uma parada cardíaca, aos 38 anos. Em luto, ela começou a escrever um blog, Para Francisco, em que apresentava o pai ao filho. Por meio dos textos, Cristiana não só superou a dor, como descobriu uma nova vocação, a de blogueira. Lançou um blog de moda, o Hoje Vou Assim, que se tornou fonte de satisfação e renda
A ideia de que a vida é mais do que a busca de sensações positivas não é nova. Ao escrever que a felicidade é o motivo por trás de todas as razões humanas, Aristóteles não defendia viver apenas em busca de emoções positivas e prazeres. Para o filósofo grego, ser feliz era praticar a virtude. Mesmo Thomas Jefferson, que alçou a felicidade a um direito na declaração de independência americana, em 1776, não defendia ser feliz acima de qualquer coisa, como queremos hoje. No livro A democracia na América, Alexis de Tocqueville afirma que, para Jefferson, a felicidade envolvia conter desejos para obter objetivos de longo prazo. O que muitos afobados de hoje resistem em fazer.
A noção de que a felicidade é um objetivo tangível – e não um horizonte que norteia nossas ações – só se tornou dominante na sociedade moderna. Sua base vem do iluminismo, que colocou o indivíduo – e suas necessidades – no centro das preocupações humanas. É dessa época a teoria utilitarista, que defendia a busca da maior quantidade de felicidade para o maior número de pessoas. Para o jurista e filósofo inglês Jeremy Bentham, a felicidade era a vitória do prazer sobre a dor. A partir do século XVIII, começou a ganhar força a ideia de que temos de evitar as sensações negativas. O principal problema dessa filosofia de vida é basear-se em princípios muito frágeis e efêmeros: as emoções. “Os sentimentos positivos e negativos não podem ser entendidos como fins em si mesmos”, afirma a pesquisadora norueguesa Ragnhild Bang Nes, do Instituto de Saúde Pública do país.
Rogério Cassimiro/Época
Nascido em Maceió, João Baptista tinha 20 anos quando deixou para trás a família e abraçou a vida religiosa em um convento em Goiânia. Hoje, vive em São Paulo, onde é responsável pela biblioteca do Mosteiro de São Bento. Para ele, abdicar dos prazeres mundanos pela clausura da vida monástica não foi um peso: faz parte do propósito que escolheu para sua existência
As emoções negativas, embora desagradáveis, podem servir de alerta para o indivíduo de que há um problema que precisa ser resolvido ou prepará-lo para experiências futuras. Como uma espécie de teste, elas parecem desafiar nossos planos de viver bem. A publicitária mineira Cristiana Guerra sabe como poucos o que é enfrentar situações difíceis e ser obrigada a superá-las. Aos 24 anos, perdeu a mãe e, aos 31, o pai, ambos para o câncer. Casada, chegou a engravidar duas vezes, mas perdeu os bebês. Aos 36, em um novo relacionamento, o sonho de ser mãe foi realizado, mas o pai de Francisco não chegou a conhecê-lo. Guilherme Fraga, então com apenas 38 anos, morreu após uma parada cardíaca quando Cristiana estava no sétimo mês de gravidez. “No dia em que Francisco nasceu, eu chorava, chorava. Meio de alegria, meio de tristeza.”
Para lidar com mais esse trauma, Cristiana decidiu escrever. Quando o bebê estava com 4 meses, transformou as anotações que já fazia em seu diário em um blog, batizado de Para Francisco. A ideia inicial era reunir num só lugar textos contando para o filho como era o pai que ele não conheceu. “Eu passava as madrugadas escrevendo e chorando. E cada vez que conseguia expressar o que era aquela tristeza, e as pessoas entendiam e compartilhavam seus sentimentos comigo, me dava uma alegria muito grande. Aquilo já era uma forma de felicidade”, diz Cristiana. Ao longo dos anos, as seguidas perdas foram responsáveis por uma espécie de transformação interior. “Acabei criando um senso de sobrevivência muito grande.”
Cinco caminhos para o bem-estar
Dicas da New Economics Foundation para conquistar uma vida melhor
reprodução/Revista Época
A história de Cristiana é um exemplo de como é possível olhar a vida de uma perspectiva positiva mesmo em situações difíceis. Segundo especialistas, os otimistas, como ela, têm mais chance de viver um processo de crescimento pós-traumático – a versão positiva do transtorno de estresse pós-traumático de que tanto se fala. Não que Cristiana não tenha sofrido e chorado muito. Mas ela conseguiu encontrar no trauma uma fonte de força pessoal. Pesquisas feitas com veteranos de guerra mostram que a maioria – cerca de 80% – é capaz, assim como Cristiana, de transformar em algo positivo um evento traumático. Um fator importante para conseguir superar a dificuldade é o otimismo. “Os otimistas são mais esperançosos, resilientes, saudáveis e têm um desempenho melhor do que o esperado no trabalho, na escola e nas relações”, afirma Martin Seligman. “Eles pensam que os efeitos das dificuldades são temporários, e suas causas, específicas, delimitadas. E que a realidade é mutável.”
É consenso entre os pesquisadores que grande parte da felicidade, assim como a personalidade, é determinada já no nascimento. “A genética explica quase metade da variação da felicidade”, diz Ragnhild Bang Nes, do Instituto de Saúde Pública da Noruega. Mas, se a felicidade já está inscrita nos genes, não podemos alterá-la? Segundo Martin Seligman, é possível aumentar a duração e a intensidade das emoções positivas, mas a melhoria esbarra num teto: a personalidade de cada um. O conformismo, então, é o que nos resta? Não, responde Seligman. Para ele, a principal vantagem da teoria do bem-estar é permitir a qualquer um, independentemente de sua personalidade ou condição de vida, avançar para uma situação melhor. Como viver bem dependeria não só das emoções positivas, mas também de outros quatro fatores, cada um pode encontrar seu próprio caminho. “Minha razão para negar um lugar privilegiado para a emoção positiva é a libertação”, afirma o psicólogo em seu livro. “A visão de que a felicidade está ligada ao humor condena 50% da população do mundo, que é introvertida, ao inferno da infelicidade.” Na teoria do bem-estar, ou do florescimento, quem não é “para cima” pode compensar adicionando propósito e engajamento à própria vida. Por esse raciocínio, nem todo mundo conseguiria ser exatamente feliz, mas todos podem viver bem.
Saber disso tira uma tonelada de ansiedade de nossos ombros. Em vez de tentar se adaptar a outro jeito de ser, de buscar o bem-estar em terras longínquas, é possível cultivar um jeito próprio de viver bem. O administrador Leonardo Grespan encontrou seu bem-estar no trabalho diário e, para isso, abriu mão de prazeres imediatos. Em fevereiro deste ano, completou 31 anos, mas não pôde comemorar. Naquela sexta-feira, chegou ao escritório às 9 horas, só saiu à meia-noite e, no domingo, enfrentou mais um plantão de 15 horas de trabalho. Tudo por causa da fusão dos bancos Real e Santander, concluída naquele fim de semana. Seu desejo de celebrar uma data especial deu lugar às obrigações profissionais, que implicavam desgaste físico e emocional, algo com que muitos se acostumam em nome de um objetivo maior. “Ver um projeto a que você dedicou mais de um ano dar certo traz uma satisfação indescritível”, diz Grespan, gerente de projetos no Santander. “Tem de realmente vestir a camisa do que você faz. Senão, não faz sentido.” O trabalho em excesso pode ter limitado as sensações de felicidade, mas certamente não lhe faltaram realização e engajamento, dois dos cinco fatores que, de acordo com Martin Seligman, compõem a condição plena de bem-estar.
Enquanto trabalhava incansavelmente para atingir seus objetivos – e os de sua empresa –, Leonardo Grespan provavelmente experimentava aquilo que especialistas chamam de “estado de fluxo”, termo criado pelo psicólogo húngaro Mihaly Csikszentmihalyi. Nele, nós nos fundimos com o que fazemos. Não interessa a atividade, o importante é que ela desafie nossa capacidade e nos mantenha ocupados. “Temos tão pouco tempo que a melhor coisa é gastá-lo com coisas de que gostamos”, diz o monge João Baptista Barbosa Neto, de 29 anos, um dos 45 religiosos que vivem no Mosteiro de São Bento, em São Paulo. Membro da ordem beneditina, João Baptista adota a reclusão como forma de vida – e de proximidade com Deus – e segue uma rotina rigorosa e pontual de rezas e trabalhos diários dentro do mosteiro. Seu dia tem início às 5 horas, com a primeira oração, e se encerra às 19 horas, com a última. Ele também aprendeu a conviver com a saudade da família, que deixou em Maceió, quando, aos 20 anos, foi morar em um convento em Goiânia. Todos os sacrifícios ficam leves porque fazem parte de um propósito – outro componente do bem-estar, segundo a teoria de Seligman –, o sentido que João Baptista dá a sua vida. “Tive de me adaptar à reclusão, mas esta foi a vida que busquei.”
Stefano Martini/Época
Dos 3 aos 23 anos de idade, o principal propósito da vida de Ricardo Prado era o esporte. Para ele, a felicidade tinha a forma de uma medalha, conquistada com muitos sacrifícios. Mas a fórmula que funcionou por 20 anos se esgotou, e Ricardo decidiu buscar seu bem-estar fora das piscinas. “O momento mais feliz de minha vida? Talvez eu não tenha vivido ainda. Mas tive uma vida de muitos momentos felizes”
No caso do ex-nadador Ricardo Prado, por muitos anos o propósito maior foi o esporte. Para ele, a felicidade tinha a forma de uma medalha de ouro, em particular a que guarda desde 1982, quando, aos 17 anos, venceu o Campeonato Mundial de Natação, no Equador. Além de chegar em primeiro, quebrou o recorde mundial dos 400 metros medley. Nos dois anos seguintes, ainda garantiria ao país duas medalhas de ouro e duas de prata nos Jogos Pan-Americanos de Caracas e uma de prata nas Olimpíadas de 1984, em Los Angeles. “Não sou competitivo. Mas ganhar dá uma sensação de missão cumprida”, diz.
As conquistas não vieram de graça. Ricardo começou a nadar aos 3 anos, no clube da cidade, o caçula de cinco filhos em uma família simples de Andradina, no interior de São Paulo. No início da década de 70, fazer algum esporte era uma forma de conseguir bolsa de estudos em bons colégios e, com sorte, viajar mundo afora. Aos 15 anos, o nadador mudou-se para a Califórnia, onde, além de completar os estudos, passou a treinar no time de Mission Viejo. “Às 5 horas da manhã, eu começava a nadar, às 8, ia para a aula, depois fazia uma hora de musculação e no fim do dia nadava novamente. Praticamente não tinha vida social”, diz. “Mas aquilo já era a felicidade! Eu estava na Califórnia, entre os melhores nadadores do mundo. E eu ganhava de todos eles.”
A vida de competições e treinos puxados não era fácil. Diante das dificuldades extras enfrentadas pelos atletas brasileiros nos anos 80, Ricardo decidiu encerrar a carreira aos 23 anos de idade. “Eu estava cansado. Mas é uma transição difícil, você deixa uma vida inteira para trás e tem de se adaptar a outra.” A nova vida de Ricardo Prado incluiu uma pós-graduação em economia, dar aulas particulares de natação e treinar equipes. Hoje, faz parte da organização das Olimpíadas do Rio de Janeiro e, aos 46 anos, arrisca a dizer que a verdadeira felicidade talvez esteja fora da água. “O momento mais feliz de minha vida? Talvez eu não tenha vivido ainda.”
Histórias como a de Cristiana, Leonardo, João Baptista e Ricardo mostram que o bem-estar pode ser alcançado mesmo diante de privações, desgastes, tragédias e mudanças, numa jornada que depende, essencialmente, de nós mesmos. Os brasileiros parecem concordar com a ideia. Uma pesquisa inédita (leia os resultados no quadro abaixo) encomendada pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) revelou que 61% acreditam que sua felicidade depende de si mesmos. A opinião é corroborada por estudos científicos, que mostram que a personalidade é o que mais influencia a felicidade. A ciência discorda, contudo, da importância que os brasileiros dão a alguns fatores externos, como o dinheiro, especialmente para quem já tem uma boa situação financeira. Nesse caso, estudos sugerem que o dinheiro só faz diferença se o aumento de renda for só seu, e não de todos a seu redor. “Para os mais ricos, felicidade é estar mais alto no ranking do que seus pares”, diz o pesquisador tailandês Nick Powdthavee, de Cingapura, e autor de The happiness equation (A equação da felicidade), 2010. Mas Seligman alerta: “Quem se baliza pela comparação social é menos satisfeito com a vida do que aqueles que levam em conta valores individuais”. É importante também saber como gastar seu dinheiro. Um estudo da Universidade de Chicago analisou nove categorias de produto e viu que apenas uma, a do lazer, estava ligada à felicidade. Seu efeito positivo parece estar ligado ao aumento do contato social. “O dinheiro tem uma relação positiva com a felicidade, mas esta é pequena se comparada com fatores não monetários, como as relações sociais”, afirma Powdthavee.
   Reprodução
   Reprodução
No livro Felicidade: lições de uma nova ciência (BestSeller, 2008), o economista britânico Richard Layard coloca as interações sociais – de amizades ou amorosas – como os fatores externos mais importantes de nossa vida. Em sua pesquisa, as pessoas que começam a ver seus amigos quase todos os dias reportaram, ao final de um ano, um nível de felicidade 0,161 mais alto (num total de 7). Isso é mais que o efeito do primeiro ano de casamento, responsável por um aumento de 0,134 na felicidade do casal. O tipo de amizade também é importante, e é melhor que seus amigos sejam bem-humorados. Segundo o médico e sociólogo Nicholas Christakis, autor do livro O poder das conexões (Campus, 2009), a felicidade é contagiosa – assim como a depressão. Cada amigo feliz de nossa rede aumentaria em 9% nosso próprio bom humor – enquanto um amigo infeliz causaria uma queda de 7%. Mas a solução não seria sair correndo atrás de muitos amigos. Em tempos de Facebook, Orkut e outras redes virtuais, em que alguns expõem orgulhosos listas com mais de 2 mil “amigos”, é importante saber qual é sua verdadeira e sólida base social. Segundo o biólogo evolucionista Robin Dunbar, o cérebro humano só é capaz de lidar com 150 amizades ao mesmo tempo. No grupo mais íntimo – e mais importante –, estariam só cinco pessoas. Mas não existem regras. Há quem consiga melhorar seu bem-estar criando relações melhores com mais pessoas e há também quem se sinta confortável com cinco. “Uma das principais sabedorias é respeitar a característica de cada um”, diz a psicóloga Cláudia Giacomoni, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Obtido o desejado nível de bem-estar, muitos podem perguntar se a conquista seria duradoura. Embora parte dos brasileiros cite a juventude como um fator importante para se sentir feliz, estudos mostram que nosso bem-estar aumenta com o passar dos anos. É verdade que a infância é uma fase propensa a uma grande dose de felicidade, mas o mesmo pode ser dito da terceira idade. Pesquisadores descobriram que, com o envelhecimento, há um aumento de bem-estar. As dificuldades surgem mesmo durante a vida adulta, repleta de desafios, pressões e inevitáveis frustrações. A explicação para essa evolução estaria nas mudanças internas, e não em nosso entorno. Com o passar do tempo, nosso comportamento muda. As pessoas mais velhas brigam menos, sabem como solucionar um conflito, controlam melhor suas emoções e aceitam mais os infortúnios. Há várias teorias sobre por que isso acontece. Laura Carstensen, professora de psicologia da Universidade Stanford, afirma que os mais velhos sabem o que realmente importa e, por isso, focam no essencial. Com isso, aliviam a pressão pela felicidade imediata e se aproximam do bem-estar. Como diz o historiador Richard Schoch, autor do recém-lançado A história da (in)felicidade, quando a felicidade está ligada a algumas condições, deixa de ser um direito de todo ser humano e se torna um privilégio de poucos. Ele diz que basta que tenhamos nascido para termos o direito e a capacidade de ser feliz. Para que esse objetivo não pese sobre nossos ombros, em vez de nos lançarmos numa incessante busca da felicidade – muitas vezes infrutífera –, deveríamos apenas descobrir como viver bem, a nossa própria maneira.

Postado por CLEBER MARTINS
Postagens mais recentes Postagens mais antigas Página inicial
Assinar: Postagens (Atom)

Workshps - Tricotilomania


Av.Protásio Alves 2599/306 F: 9288-0000(Claro) 8160-1127 (Tim)

Visitantes

contador de acessos

Clique para ler anteriores

  • ▼  2014 (2)
    • ▼  Janeiro (2)
      • O Indice da maldade
      • Entendendo a Ansiedade
  • ►  2013 (20)
    • ►  Novembro (2)
    • ►  Outubro (2)
    • ►  Agosto (2)
    • ►  Julho (3)
    • ►  Junho (1)
    • ►  Maio (2)
    • ►  Março (1)
    • ►  Fevereiro (3)
    • ►  Janeiro (4)
  • ►  2012 (17)
    • ►  Dezembro (2)
    • ►  Novembro (3)
    • ►  Outubro (4)
    • ►  Setembro (3)
    • ►  Julho (1)
    • ►  Maio (1)
    • ►  Março (1)
    • ►  Fevereiro (1)
    • ►  Janeiro (1)
  • ►  2011 (59)
    • ►  Dezembro (4)
    • ►  Outubro (5)
    • ►  Setembro (19)
    • ►  Agosto (3)
    • ►  Julho (4)
    • ►  Junho (4)
    • ►  Maio (3)
    • ►  Abril (6)
    • ►  Março (4)
    • ►  Fevereiro (5)
    • ►  Janeiro (2)
  • ►  2010 (16)
    • ►  Dezembro (4)
    • ►  Novembro (7)
    • ►  Outubro (4)
    • ►  Setembro (1)
Cleber Martins. Tecnologia do Blogger.