Hipocondria resumida


 

 
Hipocondria é um dos termos mais antigos do vocabulário médico, tendo-se generalizado a sua utilização, na linguagem corrente, por toda a população não médica, perdendo algumas vezes o seu significado preciso. A palavra hipocondria começou por ser utilizada, em finais do século XVIII, para descrever doenças cuja causa não era perfeitamente conhecida, mas que se pensava terem origem em problemas dos órgãos do hipocôndrio -uma zona do abdômen Atualmente, hipocondria descreve uma doença psiquiátrica na qual existe receio ou convicção, sem fundamento, de que se tem ou se irá ter uma determinada doença, habitualmente grave. Os hipocondríacos se preocupam excessivamente com possíveis doenças físicas ou psíquicas, comparando o que sentem com sintomas diagnosticados noutras pessoas, imaginando que estão a desenvolver doenças semelhantes.Procuram constantemente consultas médicas, submetem se a testes, tratamentos numa busca consciente ou inconsciente por um diagnóstico e sentem-se mal caso a doença imaginada exista ou não. O hipocondríaco não é um doente imaginário, mas alguém que apresenta uma verdadeira doença crônica: uma perturbação perceptiva, cognitiva e psicológica que acaba por originar sofrimento real, disfunções psicofisiológicas, deterioração familiar e social, consultas médicas freqüentes e possibilidades de automedicação e de iatrogenia (alteração para pior no tratamento de um paciente), portanto merece grande atenção e apoio. Estima-se que 10 a 20 por cento da população considerada “normal” possua tais preocupações hipocondríacas em algum momento da sua vida, particularmente em períodos de maior fragilidade emocional, sem que isto constitua uma verdadeira doença.


QUAIS AS CAUSAS DA HIPOCONDRIA?
 
Não se conhece a causa da hipocondria, mas são avançadas quatro teorias principais que tentam explicar esta doença:
1 Teoria da amplificação. É a que encontra maior apoio nas investigações já realizadas. Sugere que a hipocondria resulta de um aumento das sensações corporais normais e de um desvio da atenção do indivíduo, que parece estar “desligado” do exterior e estar seletivamente atento aos seus sintomas corporais mínimos, amplificados, que são encarados como sinônimos de doença.O hipocondríaco vive num estado de permanente escuta, desviando a sua atenção do meio ambiente para si próprio e olhando de modo alarmista e interpretando erradamente cada sensação nova no seu corpo.

2 Teoria psicanalítica. Desenvolvida a partir de Freud, advoga que a hipocondria seria resultado de fatores exclusivamente psicológicos, que as queixas físicas seriam manifestações de conflitos psicológicos relacionados com a agressividade, com a culpa, com a baixa auto-estima e sinal da excessiva preocupação consigo mesmo. Por exemplo, a carência afetiva nas crianças pode levá-las a queixarem-se de dores imaginárias para que os adultos olhem para elas e lhes dêem atenção.Da mesma forma nos idosos que em geral recebem menos atenção da sociedade é comum a queixa de dores e mal estar físico que refletem a necessidade de chamar atenção para sua pessoa.

3 Teoria da aprendizagem social. Defende que o indivíduo aprende o papel de doente. As constantes atenções e cuidados que recebe quando a sua saúde está afetada levam-no a habituar-se a esse conforto e a alimentar esse tipo de situações. Por exemplo,uma criança que numa doença infantil normal recebe excesso de cuidados ou que foi submetida á superproteção acerca de sua saúde pode desenvolver no futuro,por causas diversas, uma preocupação exagerada com esta.Outra possibilidade é que a criança tenha vivido num ambiente de sofrimento devido á doença de familiares,aprendendo,assim,a criar para si um ambiente nefasto.

4 A quarta teoria sugere que a hipocondria seria uma forma especial de uma outra doença psiquiátrica, como a doença depressiva, as perturbações da ansiedade ou certas perturbações da personalidade. Tanto que certos doentes passam a viver num total estado de dependência em relação as outros e á condição que a doença lhes impôs, tornando-se infantis, egocêntricos,tem dificuldade em tomar decisões. Outros preferem se isolar internado-se em um hospital ou tentando um auto tratamento.

O TRATAMENTO
 
A evolução desta doença é crônica e desgastante, com episódios que duram meses ou mesmo alguns anos, seguindo-se períodos de calma, podendo surgir novos episódios conforme a seqüência de acontecimentos negativos de natureza psicológica ou social que ocorrerem na vida do doente. O tratamento da hipocondria deve começar por despistar qualquer possível doença médica que explique os sintomas, também se deve procurar uma outra patologia psiquiátrica associada, como doença depressiva ou de ansiedade, que, se existir deverá ser tratada. Inicialmente, os doentes são seguidos pelos clínicos gerais que, logo que possível, os referenciam a uma consulta de psiquiatria, onde poderá ser feita uma psicoterapia – tratamento psicológico – individual ou de grupo.Nesse período e no subseqüente ao tratamento o apoio familiar é importante para a estabilidade psico-social do individuo.

Psiconeuroimunologia



Apesar de debatida desde a época de Hipócrates, a associação entre as emoções e as doenças tem sido explicada nas úultimas décadas devido aos avanços em biologia celular e molecular,
 A relação entre o  genética, neurociências e em estudos de imagem cerebral. Estes avanços revelaram as diversas conexões entre os sistemas neu- roendócrino, neurológico e o sistema imunológico e, dessa forma,
entre emoções e doenças.  O termo "Psiconeuroimunologia" foi introduzido por Robert Ader,
em 1981, para definir o campo da ciência que estuda a interação entre o sistema nervoso central (SNC) e o sistema imunológico.

 Muitos estudos também têm demonstrado que uma variedade de estressores físicos e psicossociais podem alterar a resposta imune através dessas conexões.

 O eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA) e o sistema simpático adrenomedular são os componentes neuroendócrinos e neuro- nais primários da resposta ao estresse. A liberação do cortisol a partir do córtex adrenal, das catecolaminas a partir da medula
 central nervous system     adrenal e da norepinefrina a partir dos terminais nervosos
preparamprepara o indivíduo para lidar com as demandas dos estressores metabólicos, físicos e/ou psicológicos e servem como  mensageiros cerebrais para a regulação do sistema imunológico. Por outro lado, o sistema imunológico produz mensageiros quími- cos (citocinas) que desempenham um papel crucial em mediar as respostas inflamatórias e imunes e também servem como me- diadores entre os sistemas imunológico e neuroendócrino. As citocinas pró-inflamatórias, liberadas na periferia, estimulam o SNC ativando o eixo HPA, conseqüentemente levando à produção de corticosteróide por parte da glândula adrenal. Dessa forma, a resposta ao estresse regula o sistema imunológico quando uma resposta imune não mais é necessária. As interrupções nessa alça regulatória desempenham um papel importante na susceptibili- dade e resistência às doenças auto-imunes, inflamatórias, infec- ciosas e alérgicas.2 A liberação excessiva desses hormônios de estresse antiinflamatórios, tais como o cortisol, no momento equivocado, como ocorre durante o estresse crônico, pode predis- por o hospedeiro a mais infecções devido à imunossupressão re- lativa. Por outro lado, uma ativação insuficiente da resposta hor- monal ao estresse pode predispor a doenças auto-imunes e infla- matórias tais como artrite, lupus eritematoso sistêmico, asma alérgica e dermatite atópica.

O sistema imunológico também desempenha um papel impor- tante no sistema nervoso central em relação à sobrevivência e morte neuronal. As citocinas podem atuar no SNC como fatores de crescimento neuronal e como neurotoxinas, desempenhando, portanto, um papel em doenças como Demência de Alzheimer, neuroAIDS, e trauma cerebral.
As citocinas pró-inflamatórias, tais como interleucina-1 (IL-1), interleucina-6 (IL-6), interferons (IFNs) e o fator de necrose tumoral alfa (TNF ), que são liberados durante uma infecção, induzem um conjunto de mudanças de comportamento e mal- estar associados à enfermidade, denominados sickness behavior. Este consiste em um conjunto de sintomas não-específicos que incluem: febre, fraqueza, mal-estar, apatia, incapacidade de con- centração, sentimento de depressão, letargia, anedonia e perda do apetite. Estudos em animais e humanos têm mostrado que a infusão de citocinas (sistêmica ou central) induz sintomas de sick- ness behavior. Os mesmos sintomas são descritos em voluntários injetados com moléculas que induzem a síntese de citocinas endó- genas, tais como os liposacarídeos LPS, o fragmento ativo da endotoxina do Gram negativo.
A demonstração de que as molécu- las imunes são capazes de influenciar as respostas comporta- mentais e o eixo HPA levantaram a questão sobre a ligação entre as citocinas e os transtornos depressivos. Embora alguns estudos tenham demonstrado níveis aumentados de citocinas pró-infla- matórias plasmáticas e de proteínas de fase aguda em pacientes com depressão, resultados contraditórios também têm sido descritos. Resultados mais consistentes foram encontrados em estudos clínicos com pacientes não-psiquiátricos, em que citoci- nas administradas durante quimioterapia induzem episódios depressivos que podem ser evitados por meio do uso de antide-
pressivos.3
Outra linha de investigação tem sugerido que genes que codifi- cam citocinas, que se expressam no cérebro, poderiam desem- penhar um papel na depressão.4 Em especial, o gene que codifica um membro chave do sistema IL-1, o receptor antagonista IL-1 (IL-1ra), o qual se expressa em áreas importantes do sistema biológico que, sabidamente, encontram-se desreguladas na depressão.4 A expressão do IL-1ra no SNC é muito mais modesta do que o observado no tecido periférico. Dessa forma, ainda que estejam integrados, os compartimentos central e periférico das citocinas podem ser regulados de uma forma distinta. Licinio & Wong propuseram que, nos transtornos psiquiátricos, o compartimento central das citocinas estaria ativado. Esta ativação central das citocinas, não necessariamente seria desencadeada por um processo inflamatório, mas poderia estar relacionado a outros fatores, tais como estresse, neurodegeneração e uma possível predisposição genética. Estudos futuros necessitam ser realiza- dos para elucidar esta possível via de ativação.4 Há algumas evidências sobre o papel das citocinas na etiologia de alguns sub- tipos de depressão, embora os resultados provenham de alguns estudos que ainda não foram universalmente reproduzidos. Evidências diretas de estudos em animais fornecem medidas das citocinas em áreas específicas do cérebro,5 embora a tecnologia ainda não esteja disponível para realizar tais estudos em seres humanos.

Estudos clínicos futuros deverão examinar um conjunto mais amplo de citocinas em relação às variáveis clínicas e aos mar- cadores laboratoriais da depressão, tais como estudos do sono e testes de desafio do eixo HPA. Estudos longitudinais poderiam também ajudar a elucidar a questão de se as anormalidades nas concentrações de citocinas, encontrada em pacientes com depressão maior, são marcadores de estado ou traço da depressão.


Referências


1. Dantzer R. Cytokines and sickness behavior. Vol 1. Boston: Kluwer
Academic Publisher; 2003.
2. Webster JI, Tonelli L, Sternberg EM. Neuroendocrine regulation of immunity. Annu Rev Immunol. 2002;20:125-63.
3. Musselman DL, Lawson DH, Gumnick JF, et al. Paroxetine for the preven- tion of depression induced by high-dose interferon alfa. N Engl J Med. 2001;344:961-6.
4. Licinio J, Wong ML. Cytokine pathways in the brain. 1st Ed. Vol 1. New York: Kluwer Academic Publ; 2003.
5. Tonelli LH, Maeda S, Rapp KL, Sternberg EM. Differential induction of interleukin-I beta mRNA in the brain parenchyma of Lewis and Fischer rats after peripheral injection of lipopolysaccharides. J Neuroimmunol. 2003;140:126-36.


Agradecimento a Priscila Nunes Pitt

O Especismo Animal e o Amor.





Os defensores e amantes dos animais estão ganhando visibilidade a cada dia. Porto Alegre é uma espectadora privilegiada desse processo, a campanha pelo fim das carroças (pensando nos cavalos), o estudante que se negou a aprender com dissecação, recentemente o mini-zoológico da Redenção foi fechado para não estressar os animais e, como em outros lugares, por aqui existem muitos ativistas que pedem o fim de experiências com animais, e ainda os vegetarianos sempre denunciando a indústria da carne com seus inevitáveis maus tratos. 

De qualquer forma, não é difícil perceber que uma nova sensibilidade para com a vida animal vem mostrando seu rosto. Embora essa tendência esteja em crescimento, os militantes da causa animal ainda são poucos, mas por sorte são bem barulhentos. Digo sorte porque nos põe a pensar, subvertem as certezas e isso sempre é bom.

Essa visão generosa para com os animais não é exatamente uma novidade, os Jainistas já defendem essas idéias há séculos. Essa antiga religião indiana, pelo menos desde 600 a.C., aparentada ao hinduísmo, mas que rejeita as castas e especialmente os sacrifícios, crê que toda forma de vida é sagrada (vegetais idem). Obviamente são vegetarianos, mas alimentam-se de frutos já caídos. Filtram a água para não beber algo vivo, usam um pano na boca para não engolir involuntariamente um inseto e, pela mesma razão, espanam previamente qualquer lugar onde sentam, para assegurar-se não destruir nenhuma pequena forma de vida.

Mas nem precisaríamos ir tão longe, a idéia dos nossos índios sobre a vida animal vira nossa lógica de ponta cabeça. Para eles no começo só existia a humanidade e por escolhas e descaminhos, os animais tomaram outro rumo, decaíram, mas eles seguem “humanos” de certa forma, são nossos parentes distantes. Enquanto no raciocínio ocidental nós viemos dos animais e evoluímos, para eles os animais vieram de nós. Por isso que os casamentos com animais nas mitologias indígenas não nos fazem sentido, mas para eles sim, pois seria outro povo, não outra espécie.

Essa tendência gerou um novo termo: “especismo”, para designar aqueles que tratam os animais como objetos. Especista seria quem se julga pertencer a uma espécie superior (no caso nós os humanos) e por isso se arvoraria o direito de dominar as outras espécies. Para seguir matando, criando animais para abate ou deleite (não esqueçam os caçadores, as touradas, as rinhas…), ou ainda usando-os como cobaias, não seria possível sem essa dita arrogância especista. 

Esse novo termo vem acompanhado de um raciocínio onde se diz que o especismo estaria, para nós e os animais, assim como o racismo está para as raças humanas (para quem acredita que elas existam, pois biologicamente elas não fazem sentido) e o sexismo para a dominação de gênero. Ou seja, eles buscam uma filiação que os vincularia ao lado, e de uma certa forma como um aprofundamento ético, dos que lutam contra o racismo e o sexismo.

E a questão tem mais uma volta, o racismo e o sexismo estão em declínio não por boa vontade e entendimento mais profundo dessa questão, mas por um jogo de forças sociais, onde as mulheres e os prejudicados lutaram, sofreram e não poucos morreram para chegar onde estamos. 

Por outro lado, se conseguirmos uma igualdade de estatutos de direitos com os animais, nós vamos ter que lutar por eles, pois eles não têm uma causa, a menos que seguir vivo seja uma. Ou seja, seria o estabelecimento de uma igualdade “tutorada” pelos que acreditam que isso assim deva ser. É bom lembrar que não existe um direito natural, os direitos são duramente conquistados no eterno jogo de poder e não generosamente outorgados e reconhecidos.

Nestes casos uma frase de Kundera é especialmente preciosa: “A verdadeira bondade do homem só pode se manifestar em toda sua pureza e em toda liberdade em relação àqueles que não tem nenhuma força". 

O verdadeiro teste moral da humanidadesão suas relações com aqueles que estão a sua mercê: os animais. 

E é aí que se deu a maior derrota do homem, fracasso fundamental de onde todos outros derivam”. Aliás, essa é a posição de Bauman também, embora ele fique no âmbito dos homens, ele que diz que a sua maneira de medir a humanidade de uma civilização é como ela trata os menos favorecidos, os fracos e desvalidos. O espírito é o mesmo, você só seria moralmente elevado se não se aproveitar da impotência alheia.
Mas o que sempre me pergunto frente a esses movimentos, aos quais geralmente tenho simpatias, é se estamos diante de um avanço da sensibilidade humana ou um de retrocesso? Em outras palavras: isso seria uma forma mais ampla de um humanismo revigorado? Ou estaríamos, apesar das boas intenções, frente a um sintoma de desencanto com a humanidade? Ou seja, buscamos na natureza, mais especificamente nos animais, uma causa, um equilíbrio e um valor, porque as bandeiras de sempre andam desbotadas? 

É fato que as tradicionais causas já não empolgam tanto nem tantos, de fato existe um cansaço delas. Paira a idéia de que a humanidade é uma paixão fútil e existe uma desesperança no humano e nas suas instituições e as religiões idem. Onde então buscar uma nova causa que oriente a aspiração ética que trazemos? É isso que mobilizaria essa nova sensibilidade para com os animais?

Talvez a melhor resposta seja a mais simples. De fato estamos todos infantilizados. 
Mas não de qualquer forma, isso decorre duma tentativa de simplificação do mundo, um mundo básico, do certo e do errado, do bandido e do mocinho, e isso os humanos com sua labilidade e complexidade não podem nos dar. Creio que esse movimento usa sem saber a seguinte máxima de Mark Twain: “recolha um cão de rua, dê-lhe de comer e ele não morderá: eis a diferença fundamental entre o cão e o homem.”  

Nossos amigos sabem que correm o risco de ser mordidos se escolherem os humanos e se refugiam no amor fácil dos animais.
Os animais nos mergulham num mundo sem mal entendidos, cuidar e ser amado. Você dá e você recebe. Eles nos refrescam a memória dos cuidados maternos. 
Viemos ao mundo banhados no amor da mãe, ou ele existe ou não nos constituímos. Um amor que não pede nada (na verdade não é nada assim, mas é assim que gostamos de pensá-lo). 
Exercemos com os animais uma maternidade que parece estar no horizonte das conquistas possíveis. E pior, colocamos essa forma de amar e se relacionar como paradigmática das relações humanas. Evitamos a humanidade e sua inevitável complexidade para desembocarmos numa miragem de natureza idealizada. Melhor para os pets, pior para nós.


Referencias Bibiogafia: As Fadas no Divã - Corso, M.

Desmitificando a Psicopatia


 
 
Primeiramente psicopatia nada mais significa que um portador de qualquer doença psiquiátrica e psicológica (patia = doença).

Ou seja, um portador de Depressão também se enquadraria no significado da palavra psicopata. Na mesma linha de raciocínio o termo sociopatia também não estaria adequado.

Em segundo lugar: Psicopata não é sinônimo de falta de caráter.

A característica principal do psicopata é: Ausência de sensibilidade. Não necessariamente é um mau caráter que vai fazer maldades a quem quer que seja. Depende muito de seu contexto.

Terceiro ponto: Nem todo psicopata é ambicioso.
O contrário também é verdadeiro: Nem todo ambicioso é um psicopata.

As novelas atualmente são fábricas de psicopatas. Não temos mais vilões, pessoas más, os personagens agora são sempre doentes mentais. Isso faz as pessoas crerem que qualquer pessoa que "passa por cima dos outros" para ter poder seja um "psicopata". Nem todos os casos. Muitos são meramente maus-caráteres. Poucos são de fato psicopatas.

Quarto ponto: Nem todo psicopata é mau.
Repetindo: A única característica essencial do psicopata é a ausência de sensibilidade.

A grande questão é que isso os faz não pensar nas consequências ou no sofrimento que vão trazer as pessoas. Isso provoca atitudes impulsivas, sem pensar, sem análise crítica. 

O grande risco está na impulsividade. Se ele deseja algo, ele acaba fazendo e não tem dimensão do quanto é absurdo, do quanto vai fazer os outros sofrerem, pois não sabe o que é o sofrimento, ele não sente.

Então na verdade o termo "Mentes Perigosas" está equivocado, o correto seria "Mentes Insensíveis".

O termo correto para falar de "psicopatas"(como dizem na linguagem leiga) é Transtorno de Personalidade Anti-Social ou Antissocial. O que também é um termo mal elaborado, pois não são necessariamente "contra" o "social".

Sinceridade ou "Sincericídio"?





Poucas virtudes recebem tão ampla aprovação por parte dos moralistas e de pessoas em
geral como a da SINCERIDADE
Alguém pode se recordar de uma crítica com o objetivo de
desacreditá-la?  Uma prova adicional deste mérito da qual goza a sinceridade, vém de queseus opostos recebem a marca da injúria: a insinceridade, a mentira, a falsidade, o engano, afraude, o falso testemunho, a impostura, a simulação, a dissimulação, a fanfarronice, o bluff, a adulação, a calúnia etc. 

Vladimir Jankélévitch poderia dizer que:
"A sinceridade é sempre formosa, sempre exigível, e absolutamente boa; a sinceridade não
depende de cláusuras por meio das quais ela chegaria a ser virtuosa, mas ao contrário é
ela que outorga valor a uma conduta que em si mesma carece de valor".

Agora, vejamos, é claro que a sinceridade só é um valor do ponto de vista da psicologia
da consciência.

 Sincero não é quem diz a verdade sobre algo ou sobre si mesmo, mas quem diz o
que verdadeiramente pensa, sobre o que acredita ser verdadeiro.

É assim que verdadeiramente se pode dizer as maiores falsidades. Porém, o sincero, convencido da verdade de seu erro, desconhecendo a participação de sua fantasia ou de sua má informação, se identifica com o
objeto de sua convicção. 
Não temos que acreditar nele, ainda que tenhamos que acreditar que ele crê na verdade do que diz. E tanto quanto ou mais ainda do que de todos os provérbios, devemos desconfiar quando escutamos um “sinceramente lhe digo” precedendo qualquer afirmação. 

O pretendido reforço que traz uma referência à sinceridade do falante mostra a fenda da proposição que vem a seguir.Muitas vezes ela, funciona como "jogada" da crueldade. Quem não conhece aqueles que, sob o pretexto da sinceridade, se permitem humilhar o próximo, se vangloriam de sua incontinência no dizer e "espetam e escarram" as maiores inconveniências sem calcular os resultados, e com bela indiferença se fazem desentendidos dos mesmos? Dado o universal reconhecimento da sinceridade como virtude, quem usa de sua franqueza como arma se sente justificado e faz passar o repúdio e as funestas consequências de seu dizer à conta do outro, daquele de quem não pode tolerar a produção e o proferir da verdade que ele representa: “bem, disse o que pensava... se não
agrada aos demais, isso é problema deles.”
Partamos do exemplo mais banal: “que gorda você está!” Rapidamente distinguimos
várias verdades em jogo. Poderíamos falar de uma verdade “referencial”, objetiva. A amiga, esta que escuta, ganhou quilos, e sua sincera camarada a faz notar. A balança poderia confirmar seu dizer. Basta esta consideração objetiva para entender a frase? 

Ninguém poderia ser tão ingênuo, e muito menos quem escuta. 
Há outra verdade que podemos considerar como subjetiva e que se  refere à consciência da locutora. A metacomunicação é dupla: “Observo que você aumentou de peso"
Digo isso para que veja que isso e nota que talvez deva que se cuidar, pois sua imagem
me interessa. E, além disso, não sou aduladora. Digo-lhe a verdade ainda que seja desagradável.
Minha opinião é sincera e  isso me põe acima daqueles que lhe ocultam o que eu

 me animo a dizer-lhe”. 
Pode-se dizer que esta verdade é “conferencial”: a opinião é dada como uma proposição
que pode ser aceita ou recusada; confere-se àquela que escuta a possibilidade de
julgar sobre a suposta obesidade. E existe outra verdade, uma terceira inadvertida ou racionalizada pela locutora: a da agressividade, a da intenção, muito mais grave, por não ser premeditada em seu desejo de aborrecer. Esta violência não deixa de ser percebida por quem escuta e que recusará a desqualificação de sua própria imagem, possivelmente em relação direta
com a importância dada à pretensa gordura.
 
No México, por exemplo se usa aexpressão coloquial “me cais gorda/gordo” para referir-se à impressão desagradável que alguém nos causa. A insinuação repúdio, que cai sobre quem a profere.
Em análise, se comprova que o dito "Sincero" esta busca inconsciente da antipatia é fonte de um gozo particular, intimamente vinculado com o masoquismo moral. 
Esta é a verdade não referencial, nem conferencial, mas sim “transferencial” da afirmação desagradável, e todo psicanalista está familiarizado com este fenômeno no âmbito da sessão, realçado porque, com a insinuação o sujeito supõe estar cumprindo ao pé da letra um rito.
Como a “sinceridade” é um ornamento que qualquer um pode reivindicar para si como adjetivo, a recompensa de prazer narcisista que se espera pela via paradoxal de alcançar não a simpatia, mas a hostilidade do outro compreender a economia de semelhante intercâmbio, pois pensemos que os ditos sinceros acabam atraindo mais desprazeres do que prazer e se qualidade fosse esta premissa seria ao contrario. 
É assim, por meio do mais trivial dos exemplos, que podemos seguir o processo pelo qual
alguém chega a ser “vítima de sua própria sinceridade”, desconhecendo o cheiro de prazer que exala do dizer.  Em sua forma ingênua, aparece como uma queixa a respeito da incapacidade do outro para tolerar a verdade. 

O sofrimento por ser vítima da sinceridade vale como um sacrifício no altar da Verdade.
Abundam os que se oferecem para recompensar a si mesmo com as palmas do martírio. A
incompreensão da qual acusam o outro lhes serve de passaporte. 
Temos que reconhecer que a sinceridade é uma virtude suspeita, que, às vezes, muito simplesmente, é nefasta. 

A sinceridade como intenção e como pretensão de dizer a verdade deve estar advertida de
seus perigos. A mulher e o homem, sendo prudentes, subordinam os princípios abstratos à
situação concreta do encontro com o outro. A verdade não está no que alguém pensa, mas na correta avaliação do que o outro pode tolerar daquilo que esse alguém crê saber. 

 O analista sabe que não pode dizer o que pensa sem exercer uma resistência ao dizer de seu analisante, sem cair no registro da crueldade, sem fazer-se por sua vez vítima de sua sinceridade, ou seja, tudo aquilo que contradiz como dizia Freud a Firenczi, a finalidade do amor. E o analista está advertido: o que ele pode pensar não é a verdade do outro, pois a verdade, ele o sabe, é algo que não se pode dizer nem de si mesmo.
Além disso, as palavras sempre traem aqueles que pretendem enunciá-las.
A exigência de sinceridade se dissolve quando se reconhece o inconsciente e sua
dependência do Outro. 
A veracidade não reside em quem fala, mas na relação dialética que o une com quem escuta. A verdade se expressa sempre, mesmo quando o verdadeiro for a necessidade de mentir. 
Pensemos na analogia de que: "Um falsificador, um verdadeiro falsificador, entrega moeda falsa. Se entregasse moeda verdadeira seria um falso falsificador". A verdade é a de fazer passar o falso como se não o fosse.

" A verdade nada mais faz que aprisionar a mentira no erro”. Lacan

A mentira não é econômica. Uma vez que a dizemos, mudamos o estatuto psicológico e jurídico do mentiroso e do enganado. O primeiro deve sustentar sua falsidade e deve evitar ser descoberto. Segundo todos sabem, é necessário que o mentiroso tenha boa memória. Faz-se prisioneiro de sua mentira e deve exacerbar as precauções para não trair-se. Uma mentira exige outras ao redor. O homem que diz uma mentira raramente percebe a pesada carga que pesa sobre si, pois deve inventar vinte mais para que a primeira se sustente. O jogo é perigoso, e, por isso mesmo, pode resultar como sempre que se trata de correr risco, extremamente atrativo. A psicologia daquele que mente para obter lucros nos mostra assim como a do jogador e de um modo que vale a pena comparar a dimensão dogozo. É preciso levar em conta que o mentir é um ato de linguagem e que é um performativo
muito particular impregnado efeitos perlocutórios: uma vez dita a mentira, os dois participantes no contrato se veem obrigados a jogar seus papéis, são os efeitos da palavra. Este performativo da mentira passa comumente em silêncio, em uma parte da frase que não se diz: “Peço-lhe que acredite que...”, e logo o enunciado “o motor do automóvel que estou lhe vendendo funciona maravilhosamente”. O enunciado é uma constatação, uma afirmação sobre um objeto da realidade que poderia revelar-se verdadeira ou falsa. Porém, como o vendedor sabe que sua frase
é enganosa, precisa fazer todo o necessário para que sua mentira se sustente e não seja descoberto como tal pelo comprador que, por sua vez, se mostra mais ou menos crédulo. Este novo exemplo demonstra que a palavra é sempre suspeita, acomodável, adaptável ao comércio dos desejos de um e de Outro. Quem mente pretende aprisionar sua vítima (que muito frequentemente é sua cúmplice) no círculo da intriga. Sua relação com o enganado é de desdém. Goza de saber o que o outro ignora.
Talvez tenhamos um exemplo muito claro deste gozo em Jocasta. Ela não tinha como NÃO saber, devido a todos os antecedentes, qual era a verdadeira identidade de seu filho/esposo, porém ela gozava da ignorância de Édipo e realizava assim, duplamente, seu desejo criminoso. Gozava e temia triplamente;   

 O autoengano é necessário para que o sujeito se acredite e se faça acreditar. Precisamente, é a dúvida que alimenta a necessidade de dirigir-se ao outro para a confirmação da precariedade da própria existência.  Muitas vezes se cola esta demanda no enunciado: Sim? Não? Verdade? Viu? Compreende? “You know”, além dos gestos e dos olhares de consentimento e de confirmação.

A sinceridade é a crença no próprio dizer: ela tem pouco a ver com a verdade.

E você, será que não é vítima de sua própria sinceridade?
Pense nisso....

REFERÊNCIA

DESCARTES, R. Meditaciones Metafísicas. Cuarta meditación. Serie: Clásicos No. 3. Madrid:
Edit. Gredos, 1987.
FREUD, S. E FERENCZI, S. Correspondance,tomo1. Paris: Calmann-Lévy. 1992.
JANKÉLÉVITCH, V. Les Vertus et l´Amour, 2 vol. Paris: Flammarion, 1986.
NIETZSCHE, F. The will to power. New York: Vintage, 1967.
 Human, all too human. : University of Nebraska Press, 1996.

"Coitadismo"


 


A autopiedade é uma das piores coisas que podemos sentir. Ela nos enfraquece tornando-nos vítimas de um aprisionamento mental desesperador. Quando sentimos dó de nós mesmos acabamos por reclamar todo o tempo e nada fazemos para mudar nossa situação. Infelizmente é grande o numero de pessoas que se utilizam da autopiedade achando que com ela resolvera alguma coisa.

A auto-piedade é uma das sensações mais silenciosas da nossa vida.
Na maioria das vezes é imperceptível, pois o auto-piedoso não pode perceber-se enredado por sí mesmo, e pelas artimanhas que envolvem este sentimento.
 Você já "chorou na frente do espelho", ao ver a sua própria imagem, sentindo pena de si mesmo?...muitos fazem isto, constantemente...e não sabem porque.

 É  um vicio instalado na alma.  Alimentamos o sentimento auto-piedoso, quando sustentamos um sentimento de inferioridade, causado pela insegurança.
É certo que como meio de defesa pessoal e natural, é comum que exista em nós uma certa dose de auto-piedade, mas isto se torna o nosso maior problema quando ultrapassa esta “ linha da normalidade” que é relativizada pelo impulso instintivo.
E qual é a linha da normalidade?
Se uma pedra for atirada em sua direção, você involuntariamente se protegerá. É o reflexo da auto-defesa. E trazendo isto para o campo das emoções ou dos sentimentos, observamos as mesmas reações instintivas de auto proteção sendo exacerbadas na auto-piedade.
Um exemplo disto: Uma pessoa que tem medo de ser traída, investirá tempo e energia procurando indícios do seu próprio medo como forma de auto-proteção.  É o caminho do reflexo natural. Quase inevitável
Visto que a "pena de si mesmo" é um sentimento intrínseco a natureza humana,  devemos saber que traumas, desafetos, abandonos, dores da alma, corações partidos, humilhações, e muitas outras coisas, costumam fazer parte da implantação da auto-piedade em nós, além da linha da normalidade.
Algumas vezes, um abuso sexual na infância, que sempre foi um grito calado na garganta, pela vergonha e humilhação de contar a família, pelo medo  de ser estigmatizado e culpado  e permanece emudecido pela  possibilidade de olhar nos olhos de cabeça erguida, leva-nos a viver  “alisando as próprias penas”, ou sendo verdugos  de nós mesmos. 
As vezes um abandono por parte de um "amor-alguém" pode alimentar isto pelo resto da vida se tornando auto-piedade amargurada. 

Neste sentido, a auto-piedade  pode ser considerada como  um sentimento natural, quando está dentro dos limites instintivos.  Porém a auto-piedade é um sentimento que cresce,  e quanto mais vai sendo alimentado, deixa de ser apenas instintual, para ser vício que adoece e paraliza.

Olhe para  dentro e observe quantas vezes você se torna a vítima de situações que na verdade não deveriam ser tão importantes?
Um olhar que não foi correspondido por alguma distração da outra pessoa, uma palavra não correspondida no momento esperado, uma atenção dividida com outros, por parte de alguem que você ama, etc. O que isto tem provocado em você?... Vitimização?...pena de sí?....Como você reage a estas coisas? Chora?...muda de humor?...Olha pela “janela cinza” da sua existência?....Examine-se a sí mesmo e responda somente para você.
Para superar a autopiedade, em primeiro lugar é necessário olhar para si, como quem se olha de fora, ou como quem pode se auto-analisar.
 É importante saber  que os  nossos  valores não devem ser obtidos pelo critério do julgamento de outros, mas pelo  sabemos   a nosso respeito  pelo  que  conhecemos  de nossas capacidades pessoais .  
 Nós somos de fato o único que poderemos  mudar  o que temos chamado de peso, dores e sofrimentos  em nossa vida e destino .   E o curioso é que quanto mais acreditamos que somos capaz, mais nos tornamos realmente.


             No momento da análise muitas desculpas antes usadas para justificar a autopiedade (não dá, é impossível, não consigo, não me deixam, só se eu fosse mais bonito, só se eu fosse rico, etc.) passam a ser questionadas, colocadas em dúvidas e assim podem ser abandonadas e adotados no lugar pensamentos muitos mais construtivos. Isso significa abandonar a pena de si mesmo e buscar novos significados. É deixar um possível passado desalentador e ir atrás de um futuro mais promissor. Enfim, é trocar um funcionamento onde tudo é ruim por outro que pode enriquecer. A psicanálise é de grande auxílio nesse processo. Ela ajuda a pessoa a investigar e a entender o porquê sua vida não vem sendo vivida com qualidade e a fortalecer a procura por uma vida mais digna.
            Quem estiver preso a autopiedade e estiver incomodado com isso procure ajuda. Não desperdice tempo, pois este passa muito rápido e jamais é recuperado. Use o incomodo para sair dessa posição tão desfavorável para buscar outra que lhe seja muito mais conveniente e benéfica. Nem tudo na vida é sorte, muito é fruto do trabalho que temos em melhorá-la ou piorá-la. Satre costumava dizer que: 
"não importa tanto o que nos acontece, mas o que vamos fazer com o que nos acontece. Tudo depende do que vamos criar para nós mesmos".

Afinal, o que é Perversão?


Este texto se propõe a uma investigação estrutural do conceito de Perversão para Freud. Considerando a polissemia que a palavra comporta, reportando a componentes morais, históricos, médicos e à trajetória de Freud na busca de uma definição do sintoma perverso, entendemos que não é irrelevante a tentativa de uma delimitação epistemológica do campo da perversão, que vá além de uma descrição fenomenológica de casos para um estudo teórico da construção deste conceito.



     
Perversão: A origem do interesse científico e a gênese do conceito

Possível passo inicial para essa investigação seria uma breve recapitulação do processo de apropriação científica do termo “Perversão”. Segundo Castro (2004), a busca do conhecimento científico sobre a sexualidade veio responder a uma demanda positivista e jurídica sobre as alienações mentais e as práticas socialmente bizarras no século XIX. Sendo assim, pode-se dizer que a medicina legal, em sua origem, propõe uma visão de juízo moral sobre os comportamentos sexuais, tendo como parâmetro regras fisiológicas, com um forte conteúdo de função social normativa. Segundo Fleig (2008), “(...) o perverso se caracterizaria como aquele cujo comportamento se afastaria do que estaria prescrito pela natureza. No campo sexual, segundo a doutrina da Igreja, a natureza indica sua estrita finalidade: a reprodução”(Id.,2008,p.15).
Dessa forma, qualquer comportamento que desviasse dos objetivos de perpetuação da espécie seriam considerados patológicos. A partir desse momento então a ciência, incorporada pela Medicina e apoiada pelo poder judiciário, passa a definir a moral da época, postulando quais práticas eróticas são naturais e quais são prejudiciais e patológicas (Pereira, 2009). A idéia de “defeito moral” produz por fim a figura do sujeito perverso, retratada a partir principalmente de uma convergência entre crueldade e desvio da genitalidade. Pode-se dizer que essa figura, entregue pela medicina ao campo jurídico, veio responder a uma demanda social de culpabilização (Frota Neto e Rudge, 2009). O perverso incorpora o papel social de bode expiatório, ao torno do qual se produz uma coesão entre os outros sujeitos, calcada na afirmação das diferenças entre ele – o perverso - e todos os outros.
Foucault (1976) ressalta que esse período inicial da teorização sobre as perversões, e pode-se dizer que mais precisamente a obra de Krafft-Ebing, teve sua importância por situar as práticas sexuais pela primeira vez como objeto do rigoroso discurso científico. Trata-se de um período significativo, mas que ainda é marcado por uma perspectiva que traz a sexualidade como uma instância de “caráter patológico em potencial” e não como parte constitutiva do sujeito, já que o discurso estaria focado apenas nos comportamentos desviantes das normas vigentes. Aí já estão demarcados alguns pontos de divergência entre o conhecimento médico sobre o assunto e a posterior construção psicanalítica.
 
A origem da construção do saber psicanalítico sobre a perversão: uma primeira visão

Seguido de uma rápida gênese científica do termo, buscaremos agora uma gênese do conceito psicanalítico de perversão. Segundo Castro (2004), “num primeiro momento de construção teórica freudiana, a expressão perversão sexual designava a qualidade aberrante da própria sexualidade”, o que, em algum nível, encontrava-se em consonância com a visão médica vigente. Vamos observar como a escuta psicanalítica do sintoma perverso foi aos poucos modificando esse entendimento até que Freud chegasse à noção de perversão como condição básica da sexualidade.
Podemos entender em Freud duas concepções distintas sobre o termo perversão: a primeira está ligada à estrutura básica da sexualidade infantil e a segunda irá se reportar ao momento da Castração e do Complexo de edipo, fortes componentes culturais na constituição do sujeito psíquico.
Partindo da primeira concepção, expressa nos três ensaios sobre a sexualidade (1905), podemos caracterizar a neurose como o negativo da perversão. A idéia principal desse primeiro momento do desenvolvimento da teoria é que a Perversão estaria configurada a partir de um predomínio das pulsões parciais (pré-genitais) sobre a genitalidade. Dessa forma, o sujeito que desviava do comportamento sexual da norma (genital e direcionado aos fins de reprodução), produzindo um investimento libidinal em um objeto de desejo perverso, não teria feito a entrada no Complexo de Édipo, o que por fim permite dizer que o Perverso não experimentaria o medo da castração.
Também na obra Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905), Freud traz a existência da atividade sexual infantil, sendo ela modelo para a sexualidade adulta, bem como a condição da criança de “perversa polimorfa”, que aos poucos seria moldada de acordo com padrões e normas ditadas pela cultura. Essa noção da cultura sobrepondo-se à perversão remete à origem do termo como sendo uma fuga da norma social.
A noção de pulsão é essencial para o entendimento da sexualidade em Freud. Ela pode ser descrita como uma descarga de energia que flui continuamente impulsionando o sujeito na busca de sua satisfação. O objeto, segundo Freud (1996[1915]), “É o que há de mais variável na pulsão e, originalmente, não está ligado a ela, só lhe sendo destinado por ser peculiarmente adequado a tornar possível a satisfação”. Por isso não existe um objeto único ao qual o sujeito deverá ligar-se para satisfazer suas fantasias, havendo, portanto, uma normalidade subjacente a diversas práticas sexuais que poderiam ser consideradas “depravadas”.

 

O Fetichismo: A posterior elaboração sobre o processo da Desmentida

Com o texto do Fetichismo, em 1927, Freud apresenta uma leitura diferente do que designa a perversão e neste momento há a ruptura ainda mais brusca com a visão médico-jurídica, pois ela vai além da idéia de uma fixação sexual infantil que não teria sido recalcada. O texto talvez seja ponto crucial para o entendimento da visão freudiana sobre o assunto, pois traz o conceito que designa a forma como o sujeito perverso lida com a castração: a Verleugnung ou a Desmentida, em tradução do alemão para o português.
A Desmentida, ou Recusa, refere-se ao momento da descoberta da criança sobre a diferença dos sexos e a constatação da falta do membro masculino nas meninas e ao mesmo tempo da inexistência de um falo real, que no seu imaginário teria um dia existido na mãe como objeto de plena satisfação e que lhe fora tão prezado, devido à própria posição fálica assumida pela mãe.  
Ao buscar um substituto para esse pênis que não existe, o sujeito então nega a sua inexistência, nega a própria falta. Produz-se aí a posição que Lacan denomina como a clivagem do eu, pois o sujeito se constitui a partir de duas verdades que são conflitantes mas que não anulam-se: “Ela tem o falo/ Ela não tem o falo”. O verbo recusar ou desmentir já assinala a presença de um saber negado pela criança, ou seja, o que existe não é uma ausência de recalque, mas uma tentativa de esconder a falta que muitas vezes a revela.
Freud (1927) traz que a intensidade do investimento libidinal ao objeto fetiche é tantas vezes tão exacerbada justamente por configurar um esforço muito grande (e constante) para manter esta falta tapada, pois a premissa inicial, de que a mãe não tem o falo, está sempre presente e concomitante à essa substituição.
A Desmentida surge também com um caráter de defesa e proteção narcísica do próprio sujeito: se a mãe é castrada, é por que alguém a castrou; é possível, portanto que ele também venha a sofrer a castração. Ao estabelecer um substituto do pênis materno que “tape” a sua falta, o sujeito distancia a possibilidade da sua própria castração. Além disso, defende-se também da angústia de ser engolido, pois a mãe enquanto castrada poderia apropriar-se da criança colocando-a na posição do objeto fálico perdido.
A saída dessa recusa da renúncia à satisfação pulsional se dará de forma a substituir o pênis percebido como faltante na mulher por um fetiche. Por isso, conforme seu artigo de 1927, Freud irá considerar o Fetichismo como um paradigma que explica o funcionamento da perversão. A construção do fetiche se funda no mecanismo de deslocamento e manutenção da contradição marcando o perverso numa posição de mestre do seu saber e do seu gozo.
Estabelecer e nomear a forma através da qual o sujeito defende-se da castração (da falta, a partir do conceito lacaniano) é o que permite situar a Perversão não mais como um agrupamento de comportamentos sexualmente “desajustados”, mas sim como uma estrutura de funcionamento psíquico, da mesma forma que o são a neurose e a psicose. Como consequência, é possível uma leitura mais abrangente dos sintomas, já que estes carregariam consigo uma verdade do paciente a ser desvelada, verdade esta que possui certa lógica interna e que não pode ser denominada apenas como um defeito moral ou desvio de conduta.
Fica demarcada aí a principal diferença entre os dois períodos da construção psicanalítica sobre a perversão: este segundo, mais definitivo, seria baseado na afirmação de que o perverso está sim inserido no complexo de Édipo, inclusive a entrada do sujeito em tal estrutura psíquica se dá por essa via, mesmo que exista uma resolução diferente do complexo em comparação à neurose. Se há entrada no complexo, fica claro que há também o medo da castração, sendo este o fator impulsionador da escolha do objeto de fetiche ou das outras formas de estabelecimento do sintoma através do processo da Desmentida.




O Conceito de Véu e as variadas modalidades perversas

Ao descrever a Verleugnung para o fetiche, o texto possibilita que se construa uma visão mais ou menos universal do mesmo processo em outras formas de sintoma perverso, pois independente da maneira como este se apresenta, a posição subjetiva perversa se fundaria sempre a partir da Desmentida.
Lacan (1956-1957/1995) adicionou ao conceito freudiano de Verleunung o conceito de véu. O véu seria um anteparo, colocado sobre aquilo que falta, e que se configura como um elemento com duas funções: ele é ao mesmo tempo o que esconde a falta, mas também é o que designa, que dá uma “imagem” àquilo que a princípio não existe. Com relação ao véu (ou cortina) Lacan diferencia duas posições em que o sujeito pode situar-se. Ou ele coloca-se mesmo diante do véu, sujeito que vê aquilo que o véu esconde, ao mesmo tempo em que mostra (e vê-se também constantemente capturado por essa imagem), ou pode situar-se atrás do véu. Nessa segunda posição, há uma identificação direta do sujeito com a mãe (e com o que lhe falta), já que coloca-se atrás do véu que cobre o nada com o qual se identifica.
Julien (2004) descreve e situa as modalidades de perversão, as formas do sintoma perverso, de acordo com o critério dessa diferença de posição com relação ao véu. O Fetichismo é a modalidade que talvez seja mais facilmente relacionada ao sujeito que coloca-se diante do véu: o objeto de fetiche, em suas variadas formas (pés, cabelo, calcinha ou até o curioso “brilho do nariz” descrito por Freud no texto sobre o Fetichismo), é colocado sobre a falta fálica e o anteparo da sua imagem é o próprio sujeito, captado por ela.

O Voyeurismo também faz parte do grupo de perversões em que o sujeito situa-se diante do véu. O Voyeur é aquele que abre uma fenda nesse véu, fenda esta que permite que ele tenha acesso direto à intimidade do outro, sendo que a introdução em seu mundo privado é o que permite o contato do perverso com o desejo e o gozo alheio, em uma posição de objeto. O sujeito coloca-se como a própria fenda, buscando uma posição de cumplicidade do Outro, que ele fique interessado e participe deste ritual de demonstração.
Por fim, Julien traz a homossexualidade feminina também como modalidade em que o sujeito situa a cortina à sua frente e entre ele e o falo faltante. Freud descreve o caso de uma jovem homossexual intitulado como “Psicogênese de um caso de homossexualidade feminina” (1920). Essa jovem, durante o complexo de Édipo que se estendeu até a aolescência, desejava engravidar e ter um filho do seu pai. O que acontece, no entanto, é a gravidez de sua mãe no mesmo período, e o nascimento de um irmão mais novo. A menina, decepcionada pelo investimento do pai em outra mulher que não ela, volta-se à figura da mãe (incorporada posteriormente pela mulher mais velha à qual se vincula). Ela passa a ser a criança desta senhora, como substituição à sua falta fálica.
No grupo das perversões em que o sujeito situa-se atrás do véu, identificando-se com a mãe e com seu falo que não há, Julien coloca o transvestismo, o sadismo, o exibicionismo e a homossexualidade masculina.
O transgenerismo diz respeito a uma identificação do sujeito com a mãe que tem o falo, o que o levaria a utilizar roupas femininas. É mais uma maneira de esconder a falta do objeto. Pode-se descrever a imagem do travesti desta forma: é uma “mulher” que possui o pênis no real, sendo que o órgão passa a carregar consigo o valor também de elemento fálico simbólico.
O sujeito sádico também identifica-se com a mãe fálica, pois é ele que possui o instrumento do poder fálico que vem a subjugar o outro. É importante ressaltar aqui que, segundo Deleuze, o Sadismo não deve ser definido por uma relação de complementaridade com o Masoquismo, nem como seu inverso (Julien, 2004). Dessa forma, quebra-se o mito de que existe o sadomasoquismo, já que essas duas instâncias são independentes.
Da mesma forma, o exibicionismo não estaria em relação complementar ao voyeurismo. Para o entendimento do exibicionismo também é trazido o conceito de fenda, já que o sujeito entreabre o campo de visão do outro, oferecendo à sua visão aquilo que ele possui: o falo. Nesse momento ele está identificado com a mãe não-castrada e revela ao outro aquilo o que é suposto que ele não tenha.
A homossexualidade masculina, por fim, se daria quando o sujeito, ao fim do complexo de Édipo, e à altura em que deve substituir a mãe por outro objeto de desejo, produz uma inversão: passa a identificar-se com a mãe e dirigir-se a objetos que tomariam o lugar antes ocupado pelo seu próprio eu, sobre os quais a partir deste momento ele pode investir o mesmo amor que a mãe até então investira nele próprio.




Reflexão: A importância da escuta clínica como princípio para o estabelecimento de um diagnóstico estrutural

A descrição dos tipos de perversão fazem pensar que essas classificações talvez ainda situem-se muito na lógica do que é sexual (e desviante da norma). Como estabelecer um diagnóstico de perversão em sujeitos que em todos os outros âmbitos de sua vida psíquica possuem um funcionamento neurótico e situam-se como tal? Refere-se que o neurótico também pode possuir “traços perversos”, pois às vezes há, na neurose, traços masoquistas ou voyeuristas, por exemplo, e o que diferenciaria um funcionamento neurótico do perverso seria a rigidez com que o perverso coloca sua escolha objetal como condição para o gozo. Mas mesmo assim, se for uma rigidez restrita ao campo sexual, não pode dizer respeito apenas a uma “modalidade de gozo”? Essa modalidade de gozo, mesmo quando rígida, relaciona-se sempre com a forma como o sujeito lida com a lei e com o saber? Esse questionamento parece interessante porque a perversão como tal, dentro da própria teoria psicanalítica, não se situa só a partir da descrição de comportamentos sexuais específicos, mas também por esses outros fatores, que só serão desvendados a partir da escuta clínica e não pela descrição fenomenológica de um tipo de comportamento que o sujeito possa vir a ter.
Esse ponto parece ainda mais evidente com relação à homossexualidade, pois se pode pensar que talvez no caso das outras categorias descritas, a rigidez denote mesmo um amor narcísico, devido a um direcionamento da libido à imagem de objetos (objeto fetiche, porrete, calcinha, cinta-liga) que tem como objetivo maior a proteção da potência fálica do próprio sujeito. No caso da homossexualidade, no entanto, há um investimento libidinal e um interesse no outro, que pode situar e ser situado como sujeito. Além disso, o sujeito homossexual pode admitir a existência de lacunas do seu saber sobre o desejo do outro. Pode-se dizer que muitas vezes a relação homossexual se dá, também, nos mesmos moldes “heterossexuais-neuróticos” (mais facilmente aceitáveis como “sadios”), com a única diferença de se tratar de pessoas do mesmo sexo. Penso que a atenção sobre esse ponto seja interessante para não correr-se o risco de estabelecer uma patologização do desejo e da sexualidade em suas inúmeras formas de expressão.



Referências Bibliográficas:

Fleig, M. (2008). O desejo perverso. Porto Alegre, RS: CMC. Foucault, M. (2007). História da Sexualidade. 18 ed. São Paulo: Graal Freud, S. (1905). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Em: S., Freud. Obras Psicológicas completas: Edição Standard Brasileira. Vol VII. Rio de Janeiro: Imago, 1996. _____. Fetichismo (1927). Em: S., Freud. Obras Psicológicas Completas: edição standard brasileira. Volume XXI. Rio de Janeiro: Imago, 1996b. Frota Neto, E. H.; Rudge, A. M. (2009). Da perversão à expiação: uma mudança de perspectiva. Rev. latinoam. psicopatol. fundam., São Paulo, v. 12, n. 1, mar. 2009 Julien, P. (2004). Psicose, perversão, neurose : a leitura de Jacques Lacan. Rio de Janeiro: Companhia de Freud Lacan, J. (1956-1957/1995). O Seminário, Livro 4: a relação de objeto. Rio de Janeiro: J. Zahar Lira Staccioli Castro, S. (2004).Aspectos teóricos e clínicos da perversão. Dissertação de Mestrado não-publicada, Programa de Pós-graduação em Psicologia Clínica, Pontifícia Universidade Católica, RJ. Pereira, M. E. C. (2009). Krafft-Ebing, a Psychopathia Sexualis e a criação da noção médica de sadismo. Rev. latinoam. psicopatol. fundam., São Paulo, v. 12, n. 2, jun. 2009